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“Vou ser pai, nem que recorra a uma barriga de aluguer”

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Com 25 anos de carreira, EDUARDO BEAUTÉ fala à VIP de sonhos por concretizar
Aos 44 anos de idade e 25 de carreira, o cabeleireiro das estrelas abriu o livro das suas memórias à VIP e lembrou o seu percurso até se tornar um empresário de sucesso. Directo, emotivo e crítico, Eduardo Beauté diz que é, hoje, um homem muito mais feliz, que tem em Deus um "aliado" e que encontrou novamente um grande amor.

Dom, 16/01/2011 - 00:00

 

Aos 44 anos de idade e 25 de carreira, o cabeleireiro das estrelas abriu o livro das suas memórias à VIP e lembrou o seu percurso até se tornar um empresário de sucesso. Directo, emotivo e crítico, Eduardo Beauté diz que é, hoje, um homem muito mais feliz, que tem em Deus um "aliado" e que encontrou novamente um grande amor. Para a sua felicidade ser plena só lhe falta ter novamente um filho nos braços, visto que o seu morreu com apenas seis meses, devido a problemas pulmonares: "A paixão que tenho pelos meus sobrinhos é tão grande e as lembranças do meu filho são tão boas, que queria voltar a viver a experiência."

 

VIP – Não teve propriamente uma infância desafogada...

Eduardo Beauté – Sou filho de pais separados desde os dez anos e, por isso, a minha mãe criou-me e a mais dois irmãos com algumas dificuldades. Aos 14 já trabalhava na indústria do vidro, numa fábrica onde o meu pai estava empregado, para dar algum apoio financeiro à minha mãe. Como filho mais velho, também lhe servia de ombro. Além disso, estudava à noite.

 

Qual é a recordação de infância que mais o marcou?

Os natais e os meus aniversários, depois da separação dos meus pais. Queria que passassem rápido, porque só recebia meias e cuecas. Depois, na escola, pediam-nos para fazer redacções sobre o Natal e todos os outros meninos tinham recebido pistas de carros e brinquedos... Quando os meus sobrinhos nasceram, voltei a dar um novo sentido ao Natal. Felizmente, posso dar-lhes o que nunca tive. Quanto aos meus anos, só passei a festejá-los depois dos 30.

 

Como era em adolescente?

Era um jovem especial e tinha uma imagem diferente. Na época, chamavam-me "futurista"; era a moda dos anos 80. Essa imagem fez com que um cabeleireiro da Marinha Grande, onde eu vivia, reparasse em mim e, aos 16 anos, me convidasse para trabalhar no seu salão. Era um espaço frequentado por uma classe social alta, que eu desconhecia. Aí descobri uma nova realidade, pessoas que me acarinhavam, com quem aprendi a saber viver nesse meio, o que ainda hoje me é útil.

 

Quem foram as primeiras “vítimas”?

Como ajudava a minha mãe a tomar conta dos meus irmãos, às vezes ela chegava a casa e eles estavam de cabelo cortado... com a tesoura da costura. Tinha dez anos e já havia alguma apetência para a profissão. (Risos.)

 

Depois saiu da Marinha Grande...

Sim, saí da minha cidade natal e fui para Leiria, onde colaborei nos dois salões de cabeleireiro de referência, que me permitiram dar os primeiros passos na profissão e a quem ainda hoje sou reconhecido pela grande oportunidade.

 

Mas voltou...

Sim, porque tive o primeiro convite para explorar um espaço na Marinha Grande. Foi aí que começou a minha aventura como empresário. Dois anos depois abri outro em Leiria, a cidade onde tinha maior clientela.

 

Quando surge a oportunidade de vir para Lisboa?

Alguns anos depois. Foi uma grande aventura, porque nunca tinha trabalhado cá.

Teve alguns incentivos?

Nenhuns! Para ganharem votos, os nossos governantes garantem preservativos a quem quer ter relações sexuais; a quem já as fez sem precaução, dão-lhes a pílula do dia seguinte; se engravidarem, financiam-lhes o aborto. Se nascer uma criança, os pais têm direito ao abono de família; os dependentes de heroína têm seringas gratuitas na farmácia; quem não gostar de trabalhar só precisa saber tratar dos papéis e o rendimento mínimo é-lhe garantido; aos marginais que acabam de cumprir uma pena e voltam à liberdade podem contar com o subsídio de reinserção social...

 

Mas isso é uma forma do Estado ajudar quem de facto não tem capacidade de subsistência...

Claro que sim, mas também ajudava que não dificultassem a vida aos cidadãos que querem estudar, trabalhar, produzir e ter uma vida dentro da lei. Já que não se pode contar com apoios do Estado, pelo menos não nos dificultem mais a vida. Este é o país que eu amo, mas que, infelizmente, não nos está a dar nenhuma segurança para o futuro.

 

A crise assusta-o?

Lembro-me que há 25 anos, quando comecei na profissão, já se falava de crise, mas é a primeira vez que está a fazer sentido, porque nunca me tinha visto na contingência de adaptar os meus preços a uma realidade económica como fiz agora, para poder continuar a cumprir com as minhas obrigações.

 

Por isso, falou-se que estava falido...

Alguns colegas, mais propriamente ex-funcionários, que ainda hoje usam o meu nome para terem algum prestígio, ao tomarem conhecimento que criei o conceito DIFFUSION – que oferece um trabalho com a qualidade que me é reconhecida, mas a um preço mais económico – assustaram-se. Foi aí que apareceram notícias a dizer que estava falido. A forma mais fácil de enfrentar o medo, é inventando calúnias.

 

Qual o balanço destes 25 anos?

De um modo geral, foi muito benéfico. Sinto-me um privilegiado, porque tive momentos muitos bons, oportunidades fantásticas, com grandes profissionais com quem aprendi muito. Também vivi grandes tempestades, que me podiam quase ter levado à ruína, mas sinto que sou abençoa­do por Deus. Quando acho que não tenho saída, há sempre um portão enorme que se abre. A prova é que, ao fim de 25 anos, realizo o sonho de ter o espaço maravilhoso que possuo no Palácio de Lambertini, estar rodeado de amigos fantásticos, pessoas que acompanham a minha carreira e que não são presença de ocasião. Não são amizades descartáveis.

 

Mas também as teve...

Sim, mas a essas mostrei a porta da rua. Aproximavam-se para poderem dizer que eram penteadas pelo cabeleireiro das celebridades. A diferença é que essas celebridades são minhas amigas, não são pessoas de conveniência.

 

A Fernanda Serrano foi a sua primeira figura pública, mas já se conheciam antes?

Sim, num show. A Fernanda estava no início de carreira como manequim e serviu de modelo para mim em cortes de cabelo. Houve uma grande empatia entre nós, trocámos números de telefone, o que se mantém até hoje. Há pessoas que aparecem para fazer parte das nossas vidas. Aquele dia tinha de acontecer, porque era imperativo que eu fizesse parte da vida da Fernanda e ela da minha. Temos uma relação tão forte como dois irmãos.

 

Que sonho profissional ainda não realizou?

Já possuo o espaço com o qual sonhei, no sítio que sonhei, portanto, só quero trabalhar, pelo menos, mais 25 anos. Tenho uma casa onde posso receber as minhas clientes com muita dignidade e isso enche-me de orgulho. Além disso, conto com uma equipa que me ajuda a 100 por cento. Não há nada que manche o meu percurso profissional. Nada! Nem mesmo quando não consegui cumprir as minhas obrigações com o Estado.

 

Conte lá a história de ter despedido o seu namorado, o Luís Borges...

(Risos.) Estava a precisar de recepcionistas e o Luís respondeu ao anúncio. Pela imagem, e por já ter trabalhado em lojas de roupa, reunia as condições desejadas. Além disso, acho que as senhoras se sentem mais mimadas se estiver um homem na recepção. Porém, ele era um menino especial, porque queria um trabalho para ocupar o tempo que tinha livre para além da moda e eu não podia ter uma pessoa sem cumprir horário. Ao fim de muito pouco tempo tivemos uma conversa, ele entendeu e ficou uma amizade.

 

Que depois evoluiu...

O Luís estava há muito pouco tempo em Lisboa e precisava de apoio. Talvez até por eu ser mais velho do que ele, encontrou em mim alguém que lhe dava conselhos. Essa amizade ficou. Ele partilhava um apartamento com uma amiga, mas ela teve de o deixar. Como tinha uma casa enorme, disse-lhe que temporariamente podia ficar lá até arranjar o seu espaço. A dada altura, a nossa convivência diária fez-nos perceber que tinha evoluído de amizade para algo mais e envolvemo-nos.

 

Estava sozinho há já algum tempo...

Sim. Tinha terminado uma relação há cerca de três anos. Estava carente e encontrei no Luís uma pessoa muito especial. A diferença de idades, apesar de fazer confusão a muita gente, veio trazer-me uma nova energia, uma luz que se estava a perder. Sem querer, estava a ficar velho.

 

Revê-se na irreverência do Luís?

Sem dúvida. A dada altura, estava a sentir a minha vida de empresário, muito certinha... Certa de mais do que a vida tem que ser e o Luís trouxe a irreverência... os disparates, as brincadeiras... Ele trouxe jovialidade aos meus dias e eu voltei a sorrir. Deixei de ter aquela vida cinzenta; nunca quis ser um cinzentão e até nisso Deus foi meu amigo, porque pôs no meu caminho uma pessoa que me trouxe juventude e alegria de viver.

 

Mas ao que sei, não gosta da palavra casamento?

Um casamento é entre um casal heterossexual. À união entre duas pessoas do mesmo sexo chamo oficialização.

 

Nesses moldes, quer unir-se ao Luís?

É uma possibilidade que está nas nossas cabeças. Quero que o Luís amadureça mais essa ideia, porque foi ele que me falou nisso. Foi ele que quis oficializar a nossa relação. Isso deu-me alguma ansiedade, porque é uma experiência nova na minha vida.. Estou com 44 anos e, nesta altura, já não quero perder tempo, por isso, fiquei ansioso. Claro que estou muito feliz, porque foi uma prova que o que nos une é um sentimento muito forte. Acho que vamos dar tempo ao tempo, até porque o Luís tem 22 anos... Contudo, sei que o fez de forma consciente, convicto do que estava a fazer. Talvez muito em breve venha a acontecer. Apesar disso, é muito coerente e responsável e só assim se explica chegar onde chegou na moda.

 

Qual é a sua opinião sobre a paternidade do Elton John?

Acho que vai ser o futuro. Infelizmente, e apesar de haver imensas crianças para adopção, as instituições são tão rigorosas, que até os casais heterossexuais têm imensas dificuldades. Quanto mais os casais com outras orientações sexuais, porque as pessoas acham que vão desequilibrar a cabeça dos miúdos. Porém, o maior desequilíbrio que pode haver numa criança é não ter amor.

Infelizmente, conhece bem as dificuldades da adopção.

Sim. Há muito tempo...

 

Já desistiu?

Não. Continuo a tentar, mas mesmo com as ajudas em algumas instituições, não consigo. A lei, no nosso país, dificulta imenso. Preferem ter 50 crianças fechadas numa instituição, onde até podem ter amor, mas é um amor das 9 às 17 horas, do que as colocarem um lar. Claro que entre um casal gay há que saber respeitar a criança, tal como num casal heterossexual.

 

Gostava de fazer o mesmo que o cantor?

Ainda não me informei muito, mas fiquei alerta para o tema. É uma possibilidade, sim.

 

O Luís é o homem ideal para criar uma criança?

É! O Luís, pela história de vida que tem, é um menino muito crescido e sabe bem aquilo que quer. É um projecto que existe.

 

Está a viver um grande amor..

Sim. Ao longo da minha vida tive outros dois grandes amores. A minha primeira grande paixão, aos 14 anos, por uma mulher, a Florbela. Depois, pela mãe do meu filho. Amei aquela mulher incondicionalmente durante cinco anos.

 

Mas já sentia que era homossexual?

(Silêncio...) Acho que me apaixono pelas pessoas e não pelo sexo delas. Amei tanto a mãe do meu filho que, se as coisas tivessem sido diferentes, ainda hoje estaria com ela. A orientação é um mistério que eu próprio ainda não consegui entender. Depois, mais para a frente, apaixonei-me por uma pessoa, com quem vivi durante 17 anos, que era homem... Apaixono-me pelas pessoas... Se calhar, a isso chama-se bissexualidade. Uma coisa é certa: não sou um doente, sou uma pessoa normal.

 

Nunca diz o nome daquele que foi seu companheiro durante 17 anos.

Não. Não tenho de misturar. É o meu melhor amigo, é como um irmão para mim e que adora o Luís, mas não acho necessário dizer o nome publicamente. Sinto a mesma ternura por ele que pelo meu irmão biológico. Curiosamente, ele e o Luís fizeram uma grande amizade e têm um grande respeito mútuo.

 

E um filho, é o que lhe falta para se sentir completo?

A minha vida profissional, depois da tempestade que atravessei durante cinco anos, está a voltar à estabilidade. Pessoalmente, estou a viver novamente um grande amor. Para completar, sem dúvida que ter um filho seria maravilhoso. A paixão que nutro pelos meus sobrinhos é tão grande e as lembranças que guardo do meu filho são tão boas, que queria voltar a viver a experiência. (Estou a arrepiar-me todo.) Ser pai era completar a minha realização como ser humano. É um objectivo que vou conseguir, nem que seja recorrendo a uma barriga de aluguer.

 

Alguma vez se sentiu discriminado pela sua orientação sexual?

Não. Infelizmente, há pessoas cuja formação é muito básica. Já me apercebi de comentários menos próprios, mas até acho que são pessoas com telhados de vidro e talvez até tenham alguma coisa escondida. As pessoas malformadas não me incomodam. Em termos profissionais, felizmente, tenho clientes bem formadas, que procuram a minha qualidade de serviço, sabem o ser humano que sou e tratam o Luís de forma muito carinhosa. Respeitam-me e admiram-me. Talvez existam algumas mulheres que poderiam ser minhas clientes e não são por serem homofóbicas, mas essas também não seriam bem-vindas à minha casa. Sou feliz como sou e com a vida que tenho!

 

Texto: Carla Simone Costa; Fotos: Paulo Lopes; Produção: Marco António e Romão Correia; Maquilhagem e cabelos: Ana Coelho, com produtos Maybelinne e L’Oreal Professionnel


 

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