Carla Chambel
“Sinto-me mais segura enquanto mulher”

Famosos

A atriz, de 38 anos, comemora duas décadas de carreira como atriz e prepara-se para o passo seguinte

Sex, 06/02/2015 - 00:00

Do alto dos seus 158 centímetros ergue-se uma mulher doce mas assertiva, aparentemente frágil 

mas segura do que quer para si e para a sua família. Carla Chambel, de 38 anos, comemora em 2015 duas décadas de uma carreira que teve início no Teatro da Trindade quando, deixando-a incrédula, João Perry a convidou para a sua peça, A Disputa. Foi essa experiência o que lhe deu a certeza do que queria ser e a aspirante a veterinária apostou na formação para “não deixar o deslumbramento” ofuscá-la. E continua com os pés bem assentes na terra, junto do marido, Miguel Bica, que cruzou o seu caminho há 14 anos, e do filho, João, de seis anos, que lhe trouxe algumas inseguranças mas também a clarividência para saber o que é, de facto, importante na vida. 

 

VIP – Antes de mais, não sei se já tinha feito as contas, mas faz 20 anos desde que se estreou em A Disputa... Imaginava o seu percurso desta forma? 

Carla Chambel – Não. A Disputa foi uma grande surpresa na minha vida  e, de um momento para o outro, mudou o meu percurso para sempre. Eu já pensava fazer o Conservatório. Concorri a veterinária e à escola de dança, não entrei, e estava naquele ano de espera para poder voltar a concorrer. Queria voltar a tentar veterinária, tentar o Conservatório, e na altura sugeriram-me as aulas do António Feio. Desde que tinha experimentado fazer teatro no secundário que tinha muita vontade de conhecer mais. E queria ter formação, para poder dizer aos meus pais que ia tirar um curso, que era uma coisa tão séria como ser veterinária. Portanto, a formação estava nos meus objetivos, achava-a fundamental. Mas, entretanto, surgiu o curso do António Feio e o desafio do João Perry, que tinha ido assistir às aulas e me foi lá “pescar”. E, de repente, estava a estrear-me no Teatro da Trindade, com atores incríveis. Parecia ouro sobre azul, era deslumbrante. Mas depois tive medo disso mesmo, desse deslumbramento. Sempre fui muito de ter os pés no chão e tinha muito medo de me deixar levar e me perder. Por isso, quando começaram a surgir mais convites, decidi não os aceitar para ir fazer o Conservatório, para crescer.

 

O destino tinha isto guardado para si?

Não estava à espera de nada disto, nunca planeei o meu futuro a longo prazo. 

 

Mas a insegurança não amedronta?

Passei a tirar algum prazer disso. Em vez de me angustiar, encaixei isso na minha vida da forma mais natural possível. Já convivo com o facto de não saber como vai ser o dia de amanhã há 20 anos. Mas também nunca me deixei ficar, nunca fiquei sentada à espera que me telefonem. Portanto, enquanto essa fórmula resultar, continuarei a usá-la. Não me deixo ficar na minha zona de conforto. 

 

O Bem-vindos a Beirais, da RTP, foi um risco que correu bem, considerando que está a durar muito mais do que o previsto... 

Sim, dos três meses inicialmente previstos, já vamos para dois anos. Neste momento, o contrato está assegurado até junho, é a nossa previsão. Tem corrido tudo muito bem porque temos uma excelente equipa e as histórias são leves. A série tem sentido de humor mas também espírito positivo e acho que isso nos contagia a todos porque conseguimos manter a boa disposição, apesar de estarmos a trabalhar tantas horas por dia há tanto tempo. Mas estou a adorar, é uma família que vai ficar para sempre.

 

Há ainda hipótese de continuar?

Não sei, fala-se disso, mas não temos qualquer indicação. Mas, em emissão, estará pelo menos até ao final do ano. 

 

Sabe bem fazer um produto que resulta, num canal que normalmente fica um pouco atrás nas audiências?

Sem dúvida. Sinto-me muito orgulhosa. Primeiro, porque não se sabia muito bem como é que o projeto ia resultar; depois, teve uma aceitação incrível e o próprio canal percebeu que tinha um bom produto. Sentimos que conseguimos fazer boa ficção. Um dos autores disse o seguinte, e acho que ilustra muito bem o produto: “consegue ser popular sem ser popularucho e consegue ser divertido sem ser brejeiro”. Depois, acho que o facto de ter o conceito de episódios fechados resulta muito bem e tem  um lado muito português, no que diz respeito  às histórias e às tradições. É engraçado porque, pelo facto de passar na RTP Internacional, permite-nos ter feedback de pessoas do Mundo inteiro. Adquiriu uma dimensão internacional! 

 

E a sua personagem, a Marina, é também muito portuguesa?

Sim, tenho duas grandes inspirações para a Marina. Faz-me lembrar muito a energia da minha avó. A minha avó era alentejana, teve uma taberna e teve também um restaurante, aqui em Lisboa. Portanto, tinha esta coisa de lidar com as pessoas, com os homens que, às vezes, bebem um copo a mais, e, por isso, inspiro-me muito neste lado da minha avó, nessa dinâmica. E no que diz repeito à relação que a Marina tem com o filho, revejo muito a relação que a minha mãe tem comigo, na gestualidade, até na própria moralidade. Não conservadora, mas tradicional, é muito orgulhosa das suas raízes e gosta de promover o bom ambiente. A Marina dá-me uma energia muito boa. 

Como conseguiu fazer Bem-vindos a Beirais com tantos projetos no ano passado?

Acho que Bem-vindos a Beirais aconteceu numa altura em que o mercado estava muito complicado para os atores e tive a sorte de atravessar esta fase pior da crise com alguma tranquilidade porque estava a perceber que este projeto ia ter continuidade e todos os dias penso na minha sorte, quando olho para colegas que atravessam dificuldades. Portanto, tive bastante trabalho, a promoção de filmes cujas filmagens tinham sido há mais tempo, e associei-me à Direção-Geral das Artes e à Academia Portuguesa de Cinema. Integrei a direção e vou tentar acrescentar algo ao projeto. 

 

No ano passado foi nomeada para os prémios Sophia em duas categorias: Melhor Atriz pelo seu papel de polícia em A Quarta Divisão e Melhor Atriz Secundária pelo Até Amanhã, Camaradas, que só estreou agora. O reconhecimento dos pares sabe ainda melhor?

Eu fiquei muito surpreendida. O Até Amanhã, Camaradas tinha sido filmado há quase uma década. O Joaquim Leitão queria fazer um filme e a minissérie. Na altura, acabou por estrear a minissérie, na SIC, mas o filme foi sendo adiado, e voltou a pegar-se no projeto para os 100 anos de Álvaro Cunhal. E ainda bem que saiu, porque foi um projeto que marcou a ficção nacional.

A Quarta Divisão, também de Joaquim Leitão, é um projeto completamente diferente...

Sim, não era um projeto óbvio na minha vida. Muitas vezes, quem faz o casting pensa de forma imediata em alguns nomes, e o Joaquim desafiou-me a fazer o casting para esta subcomissária. Achei fabuloso esse desafio, por me permitir mostrar outro lado do meu trabalho. Muitas vezes as pessoas acham que já conhecem o nosso trabalho e, portanto, convidam-nos diretamente, mas acho que pode ser muito interessante fazer casting. O Joaquim permitiu-me isso e quando me escolheu foi desafiante. Foi um caminho difícil para mim, em termos de atitude e de construções de personagem. Exigiu um grande trabalho, houve uma grande preparação física, a minha PT percebe que o trabalho de ator precisa de outras coisas, portanto, trabalhou comigo não apenas em termos físicos  mas também em termos psicológicos. Trabalhou a minha agressividade, a minha assertividade, e esse trabalho foi fundamental. Depois, na equipa, havia técnicos especializados em armamento cinematográfico, por exemplo, para aprender a manipular a arma e fazer detenções. Foi muito bom, fiquei com muita vontade de voltar a fazer esse tipo de linguagem completamente diferente. 

 

Agora, o que vem aí? O que se imagina a fazer no futuro?

Há um passo, que ainda não me predispus a dar, que é o da encenação. Tenho feito algumas coisas, dou aulas de teatro, mas pensar num projeto, numa peça, em atores... Inevitavelmente, vão-me aparecendo coisas na cabeça e um dia vou ter de me lançar. Já fiz direção de atores em Laços de Sangue e um encenador terá necessariamente de ser um bom diretor de atores, mas terá de ter uma visão que vai muito para além disso. Às vezes, acho que ainda tenho essa dificuldade. Mas, se calhar, tenho de arriscar e não ficar à espera de me sentir pronta. 

 

Até porque as coisas vão ganhando vida também por si próprias. Vai estrear o filme Se fosse ladrão roubava, do Paulo Soares da Rocha, que morreu antes de poder acabar o filme... 

Estamos à espera que vá para as salas de cinema. Seria muito bom porque acho que é uma obra-prima, é um último olhar dele sobre o Mundo. E embora fisicamente já estivesse muito debilitado, tinha um olhar muito jovem. Eu fiquei surpreendida porque, mesmo com a dificuldade que já tinha para expressar o que queria, tinha um rasgo, arriscava muito nas filmagens. Felizmente, ele conseguiu trabalhar o filme até ao fim. Com muita ajuda da equipa dele, sim, mas é a versão final do Paulo Rocha, e gostava muito que o público visse. 

 

Está a aproximar-se dos 40 anos, não se assusta com a idade?

Eu tenho saboreado muito bem os 30, sinto-me mais segura, enquanto mulher, enquanto profissional e enquanto mãe também. Portanto, sinto que consigo lidar com as coisas de forma mais serena, mas ainda com a energia  dos 30. Os 40... não sei como serão, mas não me projeto muito no futuro. Vou lidando com as situações à medida que elas surgem.

 

Leia a entrevista completa na edição número 916 da VIP. 

 

Texto: Elizabete Agostinho; Fotos: Bruno Peres;  Produção: Romão Correia; Maquilhagem e Cabelo: Vanda Pimentel com Produtos Maybelline e L’Oréal Professionnel

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