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“Sem a família não teria chegado aqui”, afirma JÚLIO MAGALHÃES

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Em Paris, o jornalista falou-nos do seu novo livro e da importância dos filhos e da mulher
Há um ano deu o salto para director de Informação da TVI. Agora, fomos com ele – na companhia da mulher, Manuela, e da filha, Mariana – dar um salto até Paris para falar de outro salto. Não um salto qualquer, mas "o salto", a célebre expressão que retratava a fuga clandestina dos emigrantes de 70 rumo a França. Porque este é o tema do novo livro de Júlio Magalhães, Longe do Meu Coração. Um tema inesperadamente actual, pois o autor prevê que com “políticos destes”, os portugueses serão obrigados a dar o salto para o estrangeiro como única forma de fugir à crise.

Sex, 12/11/2010 - 00:00

 Há um ano deu o salto para director de Informação da TVI. Agora, fomos com ele – na companhia da mulher, Manuela, e da filha, Mariana – dar um salto até Paris para falar de outro salto. Não um salto qualquer, mas "o salto", a célebre expressão que retratava a fuga clandestina dos emigrantes de 70 rumo a França. Porque este é o tema do novo livro de Júlio Magalhães, Longe do Meu Coração. Um tema inesperadamente actual, pois o autor prevê que com “políticos destes”, os portugueses serão obrigados a dar o salto para o estrangeiro como única forma de fugir à crise.

VIP – “O salto”, a fuga clandestina dos emigrantes rumo a França, é o tema do seu novo livro, Longe do Meu Coração. Escolheu este tema por que foi um tabu durante muito tempo na nossa História?
Júlio Magalhães – Foi isso mesmo. Tal como o tema dos retornados, ao longo destes anos todos de democracia em Portugal, não se falou sobre “o salto”. Foram realmente temas­- tabu. A culpa foi das instituições e das pessoas que têm essa responsabilidade, mas também porque quem viveu isto não quis falar, devido às situações dolorosas e difíceis pelas quais passaram.

O paradigma da viagem do emigrante é: morrer no caminho ou nas obras, já em França, ou regressar triunfalmente ao volante de um Mercedes...
Exacto, muitos morreram. Isso do Mercedes faz parte. Todos gostamos de mostrar o nosso sucesso e esses portugueses mais do que nunca, porque quando o sucesso é conquistado com sacrifício, a ansiedade de o mostrar é maior. Às vezes, mostra-se o sucesso com algum exagero e petulância, mas isso faz parte da natureza humana.

Os tais exageros e petulância que nos levam por vezes a ridicularizar os emigrantes. Claro que o Júlio também já fez piadas com emigrantes...
Fiz várias. Todos fizemos. Os “avecs”, os “vien icis”... Foi sobretudo numa fase mais jovem e depois uma pessoa vai-se apercebendo das coisas. Mas foi essencialmente neste livro que me apercebi do que era “o salto” e do que era chegar a França naquela altura vindo de Portugal.
Esta crise e o impasse que se criou entre o Governo e o líder do PSD em torno de um Orçamento de

Estado duríssimo podem precipitar um novo boom migratório?
Não tenha dúvidas que isso já está a acontecer e o próximo ano vai ser mais difícil por aquilo que estamos a ver. Faltam-nos políticos com sentido de Estado. Faltam políticos que olhem para o País à procura do interesse das pessoas e não deles próprios. Estou convencidíssimo de que este boom de emigração, que já está acontecer, vai crescer exponencialmente e de uma forma abismal. Creio mesmo que o futuro dos nossos filhos já não será em Portugal.

Está a falar como cidadão ou como jornalista?
Como cidadão e jornalista. O que vemos nesta discussão do Orçamento de Estado e nestes últimos meses é que não tem sido o interesse do País que está em causa, mas sim estratégias eleitorais e políticas. Se não houvesse estratégias de partidos, as coisas já estavam resolvidas há muito tempo.

Aqui, nas ruas de Paris, os cidadãos parecem menos dispostos a pactuar com “a falta de sentido de Estado” dos seus políticos. Esta revolta pode chegar a Portugal?
Pois é. Se não houver um travão forte, ou se os políticos não tomarem consciência que o interesse do País é essencial, a agitação social que vemos em França e em muitos países da Europa vamos também vê-la seguramente em Portugal. Se os portugueses sentirem que os sacrifícios que fazem podem ter a ver com interesses pessoais, então as imagens de revolta que vemos no estrangeiro iremos ver também em Portugal.

Ainda hoje (29 de Outubro) foram divulgados os lucros diários de diversas empresas. Como é que se lida com o facto de muitas empresas estarem a aumentar o seu lucro e depois dizer-se aos portugueses que os seus salários terão de estagnar ou até diminuir?
Exacto. Não se lida. Essa tensão social irá crescer se daqui a quatro ou cinco meses – como toda a gente diz que este orçamento não chega – tivermos de fazer outro orçamento tão duro como este e as pessoas lerem nos jornais e virem na televisão que há pessoas a enriquecer e a ganhar muito dinheiro e que continua a dar-se empregos a primos, tios e amigos. Estou convencido que essa agitação social vai mesmo chegar. E daqui a quatro ou cinco meses vamos mesmo precisar de novas medidas e esta classe política arrisca-se a ficar na História pelos piores motivos.

E a sua filha vai ficar na História como uma grande jornalista de moda? Ou é verdade que preferia que ela seguisse outra profissão?
(Risos) Sei das dificuldades da profissão. Vejo jornalistas experientes que quase mendigam nas redacções à procura de trabalho. E uma geração imensa de gente nova que não consegue entrar no jornalismo ou entra sem remuneração e a sentir uma frustração tremenda. Por isso, gostava que seguisse outra coisa. Ela ainda está com aquela ilusão de muitos jornalistas que andam a tirar o curso que têm o sonho de serem pivôs de televisão. E depois estas passerelles, este mundo dos Portugal Fashions, da Moda Lisboa, criam nesta gente um glamour e uma ideia de que a vida é bela.

Citando o Júlio, que por sua vez parafraseou José Saramago, a propósito das grandes mulheres, é verdade que tem tido uma grande mulher ao lado e não atrás de si?
Tenho, claro. Quando me perguntam: “Como é que tens tempo?”, isso tem a ver com a estabilidade que também temos na nossa vida. Não é fácil viver com um jornalista e com a vida que nós temos, mas temos conseguido ter esta vida juntos há 30 anos. Sem a família, se calhar, também não tinha conseguido chegar até aqui. A família está ao lado e às vezes até mesmo à frente.

Juca”, o seu diminutivo entre colegas e amigos, também dava um bom nome de emigrante. Ficou por concretizar algum sonho secreto de partir para o estrangeiro?
Sim, devo dizer que uma das grandes lacunas da minha vida foi nunca ter experimentado o estrangeiro. Devo-lhe dizer que entre os 18 e os 25, todos os anos pegava na mochila e fazia o InterRail sozinho na década de 80.

O emigrante quando regressava a casa precisava do Mercedes para se afirmar perante os vizinhos. O Júlio também precisa de algum símbolo de poder – roupa, carros, casas – para reforçar o seu sucesso?
O facto de ser director de Informação confere-me já um poder do qual nem eu tenho noção da dimensão. Quem me conhece, sabe que seria incapaz de alguma vez mostrar algum tipo de poder autoritário ou usar algum símbolo de classe, a mostrar que sou em quem manda ou de que eu é que sou o poder. Agora, o meu caminho e objectivo é agradar a toda a gente, mas depois vamos percebendo que isso não é possível.

Texto: Nuno Calado Costa; Fotos: Jorge Nogueira

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