Vanessa Afonso E Jorge Coutinho
“A nossa filha foi uma benção”

Famosos

Uma semana depois da morte da filha, os pais de Nonô contaram, em exclusivo à VIP, como estão a lidar com a saudade

Qui, 18/09/2014 - 00:00

De coração partido, mas firmes na certeza de terem vivido uma bênção ao lado da filha, Vanessa Afonso e Jorge Coutinho falam de Nonô com saudade. Os pais da menina, que morreu aos cinco anos vítima de cancro, falaram em exclusivo à VIP e partilharam com a nossa revista momentos únicos. A entrevista que se segue é o relato da emoção, da dor, mas também da alegria dos pais da menina que aceitou a sua doença com um sorriso e para quem o Mundo só podia ser cor-de-rosa.

VIP – A Leonor foi cremada, onde vão ficar as cinzas?
Jorge Coutinho –
Perguntei isso à mãe. A Vanessa quer ficar com elas em casa.

O que é que pensa fazer?
Vanessa Afonso –
Para já, quero tê-la comigo porque eu prometi, aliás, ela prometeu-me e fez- -me jurar que eu fazia o mesmo, que onde ela fosse eu ia e onde eu fosse ela ia. Agora, porque ainda me dói muito, eu gostava de tê-la junto a mim.

Como é que vai ser o futuro?
VA –
Não sei... Há muito tempo que tudo aquilo que sou é a “mãe da Nonô”. Agora não sei, porque eu desaprendi de ser tudo o resto, e acho que vou ter de reaprender. Ainda não sei responder.

Se ela estivesse agora aqui, o que lhe diria?
VA –
Disse-lhe tudo: que a amava, que era a minha princesa, a minha filha adorada. Amava a forma como ela me amava e que me fazia sentir tão amada. Como ela dizia, “És tu e eu, e eu e tu, e onde tu fores eu vou”. E até que um dia ela me venha buscar, eu vou ficar aqui a fazer o que ela gostaria de fazer, a dar presentes, a brincar com os meninos, a ajudar as mães... Estiveram lá tantas no funeral, e a minha preocupação foi dizer-lhes que aquilo que aconteceu com a Nonô não quer dizer nada, porque as coisas podem correr bem e vão correr bem, e transmitir-lhes esperança.

É essa a mensagem a passar aos outros pais que têm os seus filhos doentes?
VA
– Sempre. Tínhamos lá todo o tipo de pais, os dos que já foram antes da Nonô... Os pais continuam a acompanhar-se uns aos outros. É impossível cortar a ligação, porque afeiçoas-te aos miúdos com quem passas noites inteiras, porque estamos na mesma enfermaria, e a mãe foi à casa- -de-banho e tu ficas a olhar pelo miúdo e ele chora e tu dás colo, depois o miúdo quando te vê nos corredores levanta os braços para ir para o teu colo... É impossível não te afeiçoares, e a ligação depois fica com os pais. Tínhamos ali pais dos que já foram antes da Nonô e dos que ainda continuam a lutar. E a minha preocupação era mesmo não retirar a esperança àqueles que ainda têm os filhos a lutar.

Quais são os momentos mais marcantes que viveu com a sua filha?
JC –
Há momentos que nos marcam para sempre. Vou levar muitos sorrisos, muitas diabruras, a meiguice, mas há um momento que vai ficar marcado para sempre no meu coração. Há duas semanas, na altura em que soubemos que a doença tinha regressado, ela já com os pulmões debilitados, vem a correr desde o fim da rua a chamar “Papi, papi, papi”, já com a respiração debilitada, dá-me um daqueles abraços que nos enchem a alma para a vida toda. Foi esse o momento mais forte que me fica dela.

Fez uma frase que correu o País, “aceita e sorri”. E agora, nesta altura? Aceita e sorri?
VA –
Aceitei a ida da minha filha, aceitei no momento em que pedi a Deus que a levasse. Sorrir... Faz lembrar aquela música dos Bee Gees: “You always smile but in your eyes your sorrow shows”. Acho que vai ser assim talvez durante algum tempo. Sorrio quando vejo os vídeos e as fotografias dela, sorrio quando ouço a voz dela, mas cá dentro ainda estou muito triste. Estou cansada e triste.

O que lhe apetece fazer a seguir?
JC –
Estamos muito a quente, ela ainda está aqui comigo. Vou fazer uma viagem agora nos próximos tempos. Vou estar fora durante algum tempo, e essa viagem é sobretudo de busca interior, de significado, de propósito, de reforço do que é a minha missão. E quase garantidamente no final dessa viagem vou ter essa resposta. Acima de tudo, o que posso dizer neste momento é que não faço planos. Estou aqui, não estou a pensar no que vou fazer a seguir. Foi isso que a Leonor me ensinou: a viver no agora, no momento. Só quando vivemos no agora e no momento é que nós verdadeiramente sentimos a bênção que é estarmos vivos.

Depois da viagem vai voltar mais forte?
JC –
Após esta viagem, quero voltar a 101% à minha atividade profissional e ajudar mais e melhor as pessoas. Porque, como a Leonor dizia (ela era muito assertiva, muito frontal naquilo que dizia), eu sou muito bom naquilo que faço, a ajudar pessoas. E é isso que vou fazer.

Nesta altura como se sente?
JC –
Sinto-me vivo. Muito vivo. Em paz. Com o coração cheio de amor, cheio de gratidão, pleno.

Falou-se da missão da Leonor neste mundo. Qual é a sua missão?
VA – Se calhar dar continuidade à missão dela. Se calhar ela, por me saber não tão forte, veio começar algo que talvez eu sozinha nunca teria começado, para agora eu continuar. Não é que eu fosse uma pessoa individualista, mas a Nonô veio trazer-me muita humildade, à minha essência, ao meu ser, se calhar veio acordar esse meu lado.

É uma mulher melhor?
VA –
Sou. A minha filha tornou-me uma pessoa melhor. Já não tenho tanta necessidade de ter razão, de estar certa, de provar que é como eu estou a dizer. A vida não é só feita de factos...

Disse que a Leonor veio cá com uma missão. O que é que ela despertou em si?
JC –
Mais bondade. Sinto-me uma pessoa melhor. Eu hoje sou uma pessoa que julga menos, que ama mais, que aceita mais. Sou uma pessoa que elogia mais, eu era muito de criticar e elogiava pouco. Hoje elogio mais, amo mais.

Qual é a mensagem para outras pessoas que vivam a mesma circunstância?
JC –
Não só para as outras pessoas, como para Portugal, penso que a mensagem que a Leonor trouxe ao mundo é que, independentemente da dimensão do nosso desafio, podemos vivê-lo de sorriso nos lábios. Não quer dizer que não doa, porque tem de doer. Temos desafios enormes, este é um exemplo, e está-me a doer por dentro, só eu sei aquilo que me dói por dentro, mas não tenho de estar triste. Não tenho de sofrer.

Mas está a sofrer...
JC –
Sim, mas, fazendo uma metáfora, doer é eu dar um murro numa parede e provavelmente parto a mão. Se eu der um segundo ou terceiro, isso é sofrimento, porque eu já experimentei a dor da primeira vez, não tenho de reforçar a dor, não tenho de sofrer. Acima de tudo, a mensagem que quero deixar é essa: não sofrerem com os problemas e rirem-se um pouco deles. Rirmo-nos de nós próprios. Porque, independentemente de qualquer coisa, a vida é, e vai ser sempre, “côderosa”.

Texto: Luís Gamboa; Fotos: Impala e DR

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