Júlio Isidro
“A inveja é, de longe, o maior defeito dos portugueses”

Famosos

Fez agora 70 anos e 55 de carreira. E sabe que manter-se no topo é difícil em Portugal

Sex, 23/01/2015 - 00:00

A história de Júlio Isidro confunde-se com a da própria televisão. Deu esta entrevista na companhia da mulher, Sandra, 43 anos, e das filhas, Francisca e Mariana, de 16 e 13, respetivamente, e ficou bem patente que um dos melhores profissionais cá do burgo demonstra tanto à vontade nas brincadeiras com as filhas, como a conduzir programas. É um comunicador nato, mantém-se humilde, apesar de estar consciente de que é um “animal” em vias de extinção, e revela um sentido de humor refinado. Esta é uma conversa que aborda muitos assuntos sérios, mas onde acabou por imperar a boa disposição. Repito: esta é uma entrevista de leitura obrigatória.

 

VIP – Júlio José de Pinho Isidro do Carmo. Porque não é Júlio do Carmo?

Júlio Isidro – No meu primeiro programa na RTP, o nome Júlio Isidro do Carmo apareceu no genérico durante algumas semanas, ao lado de João Lobo Antunes e Lídia Franco. Depois, não sei por que razão, disseram-me que era muito comprido e que ficava Júlio do Carmo. E eu disse que não, pois podia ser confundido com o fadista [Carlos do Carmo]. E então ficou Júlio Isidro. Ainda perguntei por que razão é que o João não ficou João Antunes e responderam que ele não deixou. Pronto, eu é que facilitei. 

 

Fez 70 anos a 5 de janeiro, e 55 de carreira a 16 do mesmo mês. Ainda vai a tempo de ter um lugar de estacionamento na RTP?

Isso foi o que pedi. Realmente, é extraordinário, pois entro todos os dias na RTP como colaborador eventual. Vem um senhor ter comigo, pergunta-me o número de colaborador e dá-me um cartão. E depois estaciono onde houver lugar. Lembro-me de quando fui ao The Tonight Show, do Johnny Carson, vi que havia um lugar no chão, com uma estrela em ouro, com o nome dele. Bom, não queria isso, mas um lugar já não era mau.

 

Depois de 55 anos “amigados”, ainda sonha com o “casamento” com a RTP ?

Tenho progredido muito. Nunca tive contratos superiores a 13 semanas. Cresci, fiz família, filhas, sempre com essa instabilidade, razão pela qual trabalhei em rádio, escrevia para jornais e revistas, fazia livros infantis, apresentava espetáculos... E ainda faço isto tudo. Sempre com medo que, se faltasse uma coisa, teria outra. Nos últimos quatro anos têm feito contratos anuais e, desta última vez, um de dois anos. Já gastei o primeiro e este é o último. Lembro-me que cheguei a casa, contei que tinha um contrato de dois anos e a minha filha Francisca respondeu: “Pelo menos, durante um ano, não temos nervos.”

 

Apesar da evolução, a RTP nunca lhe propôs um “casamento” de longa duração. Sabe a razão? É que o Júlio Isidro parece uma pessoa de casamentos.

Sou de casamentos e, sobretudo, de fidelidades. Nunca fui convidado, a não ser numa altura em que fui diretor de Programas num triunvirato. Sou um homem cheio de originalidades. Eu para o Entretenimento, António Reis para a Cultura e Seixas Santos para a Ficção.

 

Nem nessa altura houve uma proposta?

Poderia ter sido funcionário, mas aquele esquema de televisão não era o que acreditava e pedi a demissão. Depois, houve a hipótese de ficar como funcionário e eu não quis.

 

Quando acabou o seu primeiro dia de trabalho, aos 15 anos, ainda se lembra do que ia na sua cabeça na viagem até casa?

Inconsciência total porque não fui logo para casa. Fui ver o filme Europa à Noite, no Cinema Roma [atual Fórum Lisboa]. Já tinha combinado com amigos, creio que fui a pé do Lumiar até lá. Quando cheguei a casa, os meus pais já estavam deitados.

 

E tinha um cartão na mesinha de cabeceira e uma miniatura de champanhe.

Uma miniatura de Magos, o espumante da época, com uma taça, que tinha um cartão por baixo deixado pelo meu pai. Dizia: “José Isidro do Carmo, o Amigo Pai, ao Filho Amigo, por estreia em ‘andanças’ da RTP”.

 

Ficou comovido?

Fiquei, claro. Sou de chorar. Não fui ao quarto dos meus pais porque a educação da época não permitia. Não bebi porque não bebo, mas guardei o cartão até hoje.

 

É verdade que, no final do primeiro ano, a sua mãe aconselhou-o a parar?

Não. Foi quando desenhei e concebi o Passeio dos Alegres. Passadas duas semanas, era um fenómeno e tinha 95% de share. O País parava para ver as minhas invenções todas as semanas. Dei uma entrevista ao Expresso e o título era: “Eu tenho prazo de validade como os antibióticos”. Já naquela altura tinha ideia de como é efémera esta profissão. A minha mãe era radiologista, ouvia muitas pessoas e foi aí que veio ter comigo e disse: “Se fosse a ti, parava, porque estás a ter fama a mais.” Eu respondi: “Ó mamã, mas isto está a correr tão bem.”

 

Vi uma foto sua em bebé, ao colo do seu pai. Ele tinha um fato de banho do Sporting. Fazia algum desporto federado?

O meu pai era muito sportinguista, tal como eu. Jogou futebol no Sporting, em miúdo, mas a minha avó proibiu-o. Os meninos de família não jogavam à bola.

 

Mas vai ao Estádio de Alvalade?

Nunca vou. Há uns tempos, fui a Inglaterra ver o Chelsea-Sporting, a convite de um amigo inglês, sócio do Chelsea. Estive discreta e desportivamente, na bancada do Chelsea, a ver o meu Sporting perder.

 

Como foi começar a fazer televisão praticamente sem haver televisão em Portugal?

Já tinha visto porque morava muito perto da antiga Feira Popular, onde se fizeram as primeiras sessões experimentais. Com 11/12 anos, metia-me nas minhas perninhas, pedia a um casal para me dar a mão – era muito pequenino, teria 1,40 m e agora 1,83 m –, para entrar à borla. A entrada custava um escudo e eu não tinha. Acabava por ver os outros a divertirem-se e as sessões experimentais da televisão.

 

Então, já tinha o bichinho?

Nenhum. Foi apenas por curiosidade. Só mais tarde fui convidado para apresentar o programa juvenil, depois de fazerem provas apenas na região de Lisboa. Creio que eram 300 e tal ou 400. Houve uma pré-seleção, ficou um grupo menor e voltámos a prestar provas. Passado algum tempo, disseram-me que tinha sido o melhor, mas que não entrava porque era o mais feio. Assim, de caras. Foi o meu querido amigo e produtor Fernando Melo Frazão, que já está lá no Céu. Mas, ainda em terra, pediu-me desculpa muitas vezes.

 

Deve ter custado...

Aquilo doeu-me.

Quando tinha 20 e poucos anos, fazia três trabalhos por dia: era alferes na Infantaria 1, delegado de propaganda médica e radialista. Ao fim de semana, ainda ia à televisão. O sucesso dá uma trabalheira desgraçada, não é?

 

Não procurava sucesso, mas sim trabalho. 

Começava na tropa às oito da manhã, saía às 16h, tinha a pasta com os medicamentos dentro 

da mala do carro e fazia a zona da António Augusto Aguiar. Alguns médicos ficavam muito admirados por eu saber tudo de cor. Depois, ia para o Rádio Clube Português, onde muitas vezes fazia 

noticiários das 19h até à uma da manhã. Outras vezes, era mais levezinho: ia a uma discoteca da 1h às 3h e, a essa hora, começava o A Noite É Nossa, até às 6h. Depois, dormia uma hora ou duas e ia dar instrução, outra vez.

 

A melhor fase da sua carreira é quando está no Passeio dos Alegres e, simultaneamente, com um programa de rádio chamado Febre de Sábado de Manhã?

Para os critérios de hoje – fama, capas de revistas, herói nacional –, sim. Mas preocupei-me tanto com o trabalho que não estive nada preocupado com a fama e, sobretudo, com o dinheiro. Na Rádio Comercial, estava no ar todos os dias com o programa Grafonola Ideal, das 10h às 13h, mais as horas antes e depois. Mais tarde, propus ao meu diretor, João David Nunes, fazer um programa de rádio ao sábado, ao vivo e em palco. Respondeu-me que era num dia das minhas folgas, mas eu quis trabalhar. E o meu vencimento para o programa de rádio mais ouvido durante anos era, exatamente, o montante correspondente a três horas extraordinárias.

 

O programa acabou por resultar num espetáculo no Estádio de Alvalade, com 50 mil pessoas que foram lá só para o “ouver”... 

Começou no Nimas, com 180 lugares. Pouco tempo depois, já tinha 360, pois tinha dois em cada lugar, e mais tarde 490, porque os terceiros estavam sentados nas coxias. A polícia foi sempre fechando os olhos. Passámos para pavilhões gimnodesportivos, estádios mais pequenos e culminou em Alvalade.

 

Leia a entrevista completa na edição número 914 da VIP.

 

Texto: Humberto Simões; Fotografia: José Manuel Ribeiro; Produção: Nucha; Cabelo e maquilhagem: Ana Coelho com Produtos Maybelline e L’Oréal Professionnel

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