Fernando Daniel
Chora ao recordar a morte do avô, o divórcio dos pais e a depressão aos 13 anos

Nacional

Fernando Daniel abriu o coração a Daniel Oliveira para falar sobre a infância marcada pelo divórcio dos pais, pela depressão e sobre a morte do avô Aníbal, que continua a ser a sua maior inspiração.

Sáb, 06/11/2021 - 16:16

Fernando Daniel foi o convidado da emissão deste sábado, 6 de novembro, de “Alta Definição”, da SIC. O cantor, de 25 anos, abriu o coração a Daniel Oliveira para falar sobre a infância marcada pelo divórcio dos pais, pela distância da mãe, pelo alcoolismo do pai, pela depressão e sobre a morte do avô Aníbal, que continua a ser a sua maior inspiração.

Aos 10 anos, Fernando Daniel foi confrontado com a notícia de que o pai tinha sofrido um Acidente Vascular Cerebral (AVC) enquanto andava de mota e acabou por ter um acidente que o deixou em coma, numa cama de hospital.

“Estava a brincar na estrada com amigos. Vou para casa, o meu pai era suposto estar em casa, e não estava. Estava tudo fechado. Continuei a brincar e quando voltei a casa senti que alguma coisa não estava bem. Não me disseram nada. Vou até ao café que o meu pai frequentava e pediram-me para lá ficar, que vinha um tio meu buscar-me e percebi que algo se passava, fiquei em pânico”, começou por contar.

E continuou: “Vem uma tia minha buscar-me, leva-me para casa dela e foi muito crua na forma como o disse. Disse que o meu pai tinha tido um acidente de mota, que tinha tido um AVC enquanto conduzia e que estava no hospital. Que as coisas podiam não correr bem e para me preparar porque podia ficar sem pai. O meu pai entra em coma e é uma imagem que nunca mais vou tirar da minha cabeça porque com o meu pai em coma eu decido visitá-lo. Lembro-me de ter dado a mão ao meu pai e chamei-o. Pensei que o podia acordar chamando-o. Lembro-me de a minha mãe dizer: ‘Filho, o pai não vai acordar agora’. Sinto que a minha memória apagou-se.”

Fernando Daniel decidiu regressar ao hospital dias mais tarde para ver o pai, recém-acordado do coma, “numa cadeira de rodas, com um lençol no peito, amarrado às madeiras do hospital” porque não conseguia segurar-se sozinho. “Babava-se porque a cara estava um bocadinho ‘desfeita’ porque partiu um osso da cara. Não tive pena, não tive medo, só queria que o meu pai saísse dali, fosse assim ou não. Sinto que, a partir desse dia, eu continuei a ser para ele o filho que sou, mas ele passou a ser um pai e um filho também. Hoje em dia ainda é das pessoas com quem mais me preocupo”, adiantou.

Os episódios de violência dos pais: “Não devia ter visto aquilo”

Dois anos depois do acidente, os pais de Fernando Daniel tomaram a decisão de se divorciar, depois de o pai do intérprete do êxito “Espera” se ter mudado para o Luxemburgo para poder dar à família melhores condições de vida. A mãe do artista, que venceu a edição de 2016 do “The Voice Portugal”, da RTP1, acabou por se apaixonar por um homem e, mais tarde, mudaram-se os dois para o Luxemburgo.

“Apesar de hoje a ter desculpado e de as coisas estarem um bocado diferentes, ela diz que vai ter com o meu pai e que me vem buscar mais tarde. Isso nunca aconteceu. Eu tinha 12 anos nessa altura…”, confessou.

Fernando Daniel acabou por ficar a viver em casa dos avós maternos, até o pai regressar para Portugal para viver com ele. Apesar de não ter compreendido o facto de a mãe ter “traído” o pai, o cantor não esconde que desejou várias vezes que os pais se separassem, devido aos problemas de alcoolismo do pai, que o faziam ser “verbalmente” agressivo com a mulher.

“O meu pai sem a bebida enche uma casa de alegria. Na altura, o meu fez coisas que eu realmente preferi que os meus pais estivessem separados do que eu estivesse a assistir a brigas, a confrontos, a muita coisa (…). Há um dia que é marcante para mim que, por causa da bebida… O meu pai tinha uma arma de caça, descarregada, e ele entra no quarto com ciúmes, muito motivado por causa da bebida, porque o meu pai sem aquilo era uma pessoa bem-disposta. Mas foi naquela de assustar e eu não devia ter visto aquilo. Nessa noite eu não dormi. No dia a seguir, a minha vontade foi de abraçar o meu pai porque eu sabia que não era o meu pai que estava lá ontem…”, revelou, emocionado.

“Apesar de tudo o que fazia, o meu pai gostava da minha mãe e aquilo para ele foi um murro no estômago porque ele sóbrio não conseguia compreender o que é que fazia quando não estava. Vejo o meu pai a chorar várias vezes, a não dormir. E eu sinto-me um bocadinho como o pai dele e é por isso que te digo que deixei de viver a minha infância”, afirmou.

“Estive medicado durante seis meses”, revela Fernando Daniel

Um ano após a separação dos pais, Fernando Daniel é diagnosticado com uma depressão, com apenas 13 anos. “Fui para psicólogos, estive medicado durante seis meses”, contou. Prestes a estrear-se no mundo da paternidade, o artista garante que vai ser um pai completamente diferente para a filha Matilde, que deverá nascer em dezembro.

“Se há coisa que sei que ela vai ter será, em primeiro lugar, um pai presente, que já mais tocará em bebida. Que, por mais que esteja chateado com a mãe, nunca vai ver os pais discutir à frente dela. Acho que as discussões fazem parte de um relacionamento, desde que sejam saudáveis. Acima de tudo, nunca lhe vai faltar carinho”, disse.

As saudades do avô: “A pessoa com o coração mais bonito que já conheci”

Os avós maternos de Fernando Daniel foram “das pessoas mais importantes da sua vida”, mas é ao avô Aníbal, o antigo patrão da sua mãe, a quem recorre nos momentos mais difíceis.

“Há uma pessoa a quem vou estar sempre agradecido que é o meu avô Aníbal, que não era meu avô. A minha mãe era doméstica, não tinha dinheiro para me pôr numa creche, e levava-me para casa deste senhor, onde ela era doméstica. Cresço a chamar-lhe avô. Desde então, acompanhou a minha vida toda…”, começou por explicar, de lágrimas nos olhos.

E continuou: O meu avô Aníbal, conhecendo a nossa realidade, passava muitas vezes lá em casa para se assegurar de que estava tudo bem. Às vezes, metia-me no táxi, porque ele era taxista, e íamos fazer serviços só para me distrair. Há uma fase que o meu avô Aníbal tem um papel fundamental que é quando o meu pai tem o acidente. Falta comida em casa, falta apoio e tenho várias memórias o meu avô a chegar com sacas de comida, pagava uma ou outra conta que estava por pagar. Volto a lembrar, não era do meu sangue. Ele não tinha de fazer aquilo. Mas por ser a pessoa com o coração mais bonito que já conheci, fazia. Hoje em dia, é o meu anjo da guarda, é a pessoa a quem eu recorro sempre.”

O avô Aníbal morreu vítima de um cancro há vários anos, ainda antes de Fernando Daniel concorrer ao “Factor X”, da SIC, em 2013, mas continua a ser a sua maior inspiração.

“Não há nada que não faça profissionalmente sem falar com o meu avô. Verbalizo mesmo. Apesar de não ouvir a voz dele, que era uma coisa que eu precisava, acredito que um dia nos vamos voltar a ver. Esse meu avô Aníbal, para quem eu escrevi a “Melodia da Saudade”, é a pessoa que, se eu pudesse trazer de volta, nem que fosse por um minuto, como diz a música, era o meu avô… Para dizer obrigado por tudo o que se passou, por tudo o que ele fazia. Eu não agradeci, vivia só. Tentava esquecer-me do que se estava a passar e ia aproveitar com ele…”, revelou.

“(Se pudesse) dizia-lhe que o amava muito, que tinha muitas saudades dele. Que tenho pena de não o ter na plateia. Perguntava-lhe se ele está orgulhoso da nossa canção. Para mim, é a canção mais bonita que já fiz. Dava-lhe um abraço, tocava para ele as músicas que ele quisesse. Porque ele nunca viu nada disto. Ele sabia. Sempre me disse: ‘O avô acha que tu sabes cantar. Canta. Vai atrás do teu sonho.’ Se há coisa que eu tenho feito é ir atrás das coisas. Quando alcanço alguma coisa, é a primeira pessoa em quem eu penso. Quando a minha filha nascer, ele vai estar ao lado dela e vai ajudá-la no que ela precisar. Para mim, é como se fosse o meu Deus”, acrescentou, de voz embargada e muito emocionado.

Depois da morte do avô, Fernando Daniel ficou muito mais sensível no que toca à doença e, por isso, faz questão de ir várias vezes às alas pediátricas dos IPO para poder dar alegrias às crianças que estão a lutar contra o cancro.

“O meu avô não merecia, uma criança de 4 ou 5 anos merece muito menos passar por um cancro de um dia para o outro. Isso não se explica a uma criança, simplesmente se ameniza a despedida e os últimos dias. Poder-lhes dar estes mimos vai muito mais pala além do que eu possa explicar (…). Espero que quando forem, vão em paz e que de certa forma o meu avô também os possa guiar”, afirmou.

A morte da avó: “É mais um anjo da guarda que a Matilde vai ter”

Recentemente, a avó materna de Fernando Daniel morreu. Nas redes sociais, o cantor assinalou a despedida daquela que foi uma das suas maiores forças para seguir a carreira musical com um vídeo emotivo em que toca guitarra e canta para a avó, já acamada, mas foi à conversa com Daniel Oliveira que falou pela primeira vez sobre esta perda.

“Fui para um concerto e ligou-me a minha tia a dizer que a minha avó estava nos cuidados paliativos e que não lhe davam muito tempo de vida. Pedi logo para a ir ver no dia a seguir, levei a guitarra comigo. Ela nunca tinha visto um concerto e eu não podia permitir que a minha avó fosse sem antes ver de perto, e só para ela, aquilo que ela também me incentivou a fazer. Soube já, nos fins de vida dela, que ela também quis ser cantora. Ela nunca me tinha contado…”, contou.

“Tinha-me prometido esperar pela Matilde, mas no dia a seguir a minha tia acorda-me a chorar a dizer que a minha avó piorou imenso de noite e que tinha horas de vida… Antes de chegarmos, ela tinha dito que queria ver a Matilde, a Sara (namorada do cantor) e a barriga. A primeira coisa que fizemos foi chegar a barriga ao pé dela, ela pôs a mão na barriga… e é mais um anjo da guarda que a Matilde vai ter. Sei que onde ela está, está certamente orgulhosa e resmungona como era. É assim que vou manter a memória dela”, findou.

Texto: Mafalda Mourão, Fotos: Reprodução SIC

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