Todos os países têm na sua história famílias que se destacaram e que, a dada altura, dominaram a economia nacional. Invariavelmente, todas partilharam um destino comum: a sua queda. Por cá, 2014 marca o fim do império da família Espírito Santo.

O nascimento ocorreu pela mão de José Maria do Espírito Santo Silva, quando a partir de 1869 se dedicou ao comércio de lotarias, câmbios e títulos de crédito nacionais e internacionais. Este negócio gerou diversas casas bancárias que, com a sua morte, em 1916, foram dissolvidas e deram lugar à Casa Bancária Espírito Santo Silva & C.ª, gerida por José Ribeiro do Espírito Santo Silva. Em 1920, a casa bancária transformou-se no Banco Espírito Santo.

Dezassete anos depois, já com Ricardo Ribeiro do Espírito Santo Silva no leme da instituição, iniciou-se uma parceria de quase 80 anos entre a família Espírito Santo e a família Queiroz Pereira, através da fusão do BES e do Banco Comercial de Lisboa. Nasceu assim o BESCL (Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa). Com o 25 de Abril e a nacionalização do banco, a família sofreu um enorme rombo. Contudo, em 1986, ano de entrada de Portugal na União Europeia (na altura, CEE), a família regressou com a fundação do Banco Internacional de Crédito (BIC), liderado por Ricardo Salgado e em parceria com o francês Crédit Agricole.

Foi o banco francês que em 1991 financiou a recompra do BESCL pelo Grupo Espírito Santo (GES). Em 1999, o banco retomou o seu nome inicial de BES e em 2005 o BIC foi absorvido. Após retomar o controlo do banco, Ricardo Salgado, apenas com crescimento orgânico, catapultou a quota de mercado do BES de oito para 20 por cento. A família viveu um período de ouro a partir de 2000 e alargou a sua influência a quase todos os sectores de atividade.

Conhecido por DDT – Dono Disto Tudo –, Ricardo Salgado foi o mentor da expansão do BES, apostando especialmente em África, Brasil e Espanha. Teve o mérito de construir o mito Espírito Santo, mas foi sob a sua alçada que aconteceu toda a polémica que envolve o seu nome. A sua liderança terá dado origem a vários erros. O de gestão terá sido o mais grave. A História está repleta de cinzas de grandes impérios devido a um crescimento desenfreado. Salgado permitiu uma alavancagem (muita dívida e pouco capital próprio) excessiva do risco no grupo e, aos primeiros sinais da grave crise económico-financeira de 2007, não terá invertido imediatamente a situação.

Enquanto o “carrossel” dos investimentos funcionou, Ricardo Salgado aguentou-se. Contudo, o “erro estratégico” acabou com o esquema. Nomeadamente, o diferendo com Pedro Queiroz Pereira (PQP), presidente da Semapa. Foi uma quezília que terminou com a parceria entre as famílias, e tudo porque Salgado se colocou do lado das duas irmãs de PQP, Margarida Queiroz Pereira Simões e Maude Queiroz Pereira Lagos, num diferendo que tinham com o irmão, onde o criticavam por não salvaguardar os seus interesses. O ex-presidente do BES foi igualmente acusado por PQP de ter um plano de assalto à Semapa, escondendo durante dez anos uma posição detida pelo BES na empresa, arguindo sempre que era de investidores estrangeiros que queriam permanecer anónimos. exceto se for a valores bastante mais baixos.

O mais provável, e reparando o segundo erro estratégico de Salgado, é recorrer ao fundo destinado à banca, existente no programa de assistência financeira a Portugal. Restam 6,5 mil milhões e, mesmo que seja tudo canalizado para o BES, não chega, caso se concretizem as piores estimativas. Restará um aumento de capital na ordem dos três milhões ou, caso tal não seja possível, um apoio do BCE ou do Estado português.

Apesar de a situação não ser comparável à do BPN, e de os depósitos estarem tão seguros no BES como noutro banco da praça portuguesa, uma dotação de capital é, sem sombra de dúvida, necessária. Faltará saber com exatidão o seu montante.

Por último, uma referência especial ao Espírito Santo Financial Group (ESFG), uma empresa cotada em bolsa, com uma capitalização de 268 milhões e que tem a negociação suspensa. A ESFG (que detém ainda 20 por cento do BES e uma exposição ao GES de 2,35 mil milhões) tem 1,2 mil milhões de capitais próprios, excluindo minoritários. E supostamente tem, também, 700 milhões para compensar os investidores particulares do BES de potenciais perdas que tenham com a dívida do grupo. Contudo, não teve – ou não quis – pagar 100 milhões relativos ao empréstimo do Nomura, capital que utilizou para comprar títulos do BES no aumento de capital do mês passado. Não pagando, foi obrigado a vender cinco por cento a 34 cêntimos por ação, assumindo uma perda imediata de 48 por cento no investimento e de dois por cento na participação do BES.

Foi, provavelmente, um dos piores negócios de que há memória na história financeira portuguesa! As razões mais prováveis para tal ter sucedido são duas: ou, na realidade, nem sequer detinha 100 milhões em liquidez, ou (talvez mais grave) antecipou uma queda dos títulos do BES para valores bem abaixo dos 34 cêntimos, o que pressuporia uma situação do banco mais complicada do que aquela que é conhecida. Ao nível do regulador, este caso vem dar força à ideia de uma supervisão mais intrusiva, como defende o FMI. Relativamente à família, composta por sensivelmente 300 membros, a responsabilidade não é exclusiva de Ricardo Salgado, até porque na holding familiar votam mais quatro representantes, e sem os seus votos nada aconteceria. Com este desfecho, fica provado que não há pessoas ou famílias grandes demais para cair; apenas algumas empresas têm esse direito.

Texto: Marco Silva, especialista em mercados financeiros; Fotos: Impala

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