Jorge Corrula
“É preciso ter sentido de humor em tudo na vida”

Nacional

Jorge Corrula, de 36 anos, protagonista da primeira comédia gay portuguesa, faz um balanço positivo de 2014 e fala da relação com a filha, Beatriz

Sex, 16/01/2015 - 00:00

Não come as 12 passas para pedir desejos nem segue nenhum ritual de passagem de ano para dar sorte e apesar das previsões astrológicas para os nativos de Peixes – signo de Jorge Corrula – falarem de 2015 como um ano de altos e baixos a nível profissional, é com um sorriso nos lábios que o ator, de 36 anos, olha para o futuro. Como o próprio diz: “Sou um optissimista”. A palavra, naturalmente, não surge no dicionário, mas reflete bem o espírito de Jorge Corrula: otimista, mas sempre com uma certa dose de pessimismo, o que o obriga a ter os pés bem assentes na terra. Este ano, ambiciona fazer teatro. No cinema, ainda está em exibição o filme "Virados do Avesso" e na TV podemos vê-lo em Água de Mar, da RTP. 

VIP – Começámos agora 2015. Gosta de fazer balanços e faz resoluções de ano novo?

Jorge Corrula – Passei o fim de ano com a minha família, com a Paula [Lobo Antunes] e a minha filha, e a Paula é que tem muito esses hábitos de fazer resoluções, comer as 12 passas... é todo um ritual que ela segue. Não tenho muito esses hábitos, mas obviamente faço um balanço do ano.  

E traça objetivos?

De um modo geral, não. Tenho objetivos para a minha vida, profissional e pessoal, mas não é no dia 31 de dezembro que faço os 12 desejos e reflito sobre o que aconteceu durante o ano. É mais durante dezembro. Água de Mar acabou nesse mês, mas se continuasse até março, como estava previsto, não fazia nenhum balanço porque, para mim, o ano continuava como o ano letivo ou o desportivo... Tenho por hábito dizer que quero fazer teatro pelo menos uma vez por ano. Não o cumpri em 2014, mas acho que vai acontecer este ano. O ano anterior foi um ano de muito trabalho e de descoberta pessoal. Foi um ano francamente bom, tanto a nível profissional como pessoal. Daí que 2014 seja difícil de bater.

Por que razão diz que foi de descoberta pessoal? O que descobriu de novo em si?

Tive dois trabalhos muito intensos (a novela Água de Mar e o filme Virados do Avesso) com duas personagens que exigiram muito de mim, uma carga horária muito forte e isso levou-me ao limite. Gosto destes desafios que nos levam ao esforço extremo, pois é aí que testamos os nossos limites. Gosto de acreditar que a prova foi superada. 

As previsões de um conhecido astrólogo para os nativos de signo Peixes dizem que será um ano de altos e baixos no trabalho... 

Mas isso é sempre. Como ator, é sempre de altos e baixos. Por isso é que não me deslumbro quando estou em alta e não me vou completamente a baixo quando as coisas não estão a correr bem. Gosto de ver as coisas planas ou de ver, pelo menos, uma linha continuamente a subir. Os altos e baixos formam outras linhas paralelas e habituei-me a viver com elas. Já tive alguns períodos em que o trabalho não abundava.

Lida bem com as contrariedades?

Sim. Gosto de dizer que sou um “optissimista”. Mesmo nas alturas mais otimistas conservo-me com um pé no pessimismo de maneira a não ficar desiludido quando as coisas não correm bem.

O filme Virados do Avesso ainda está em cena e ultrapassou os 103 mil espetadores. Como olha para este sucesso? Já é um dos filmes mais vistos do ano...

Acho que é um sucesso natural. Esperava que fosse assim. O filme mais visto é Os Maias, mas estreou dois meses antes. Se o Virados do Avesso tivesse estreado na mesma altura, acho que poderia tê-lo ultrapassado. Atrevo-me a dizer que o Virados do Avesso é o mais visto do ano, porque Os Maias estão com dois meses de avanço. Mas também podemos dizer que o Virados do Avesso esteve em muito mais salas e teve mais publicidade... Falando de justiça, é justo que Os Maias seja o filme mais visto do ano, mas o Virados do Avesso ainda está a meio do percurso.

Há quem diga que o humor é um dos géneros mais difíceis de fazer, mas, no seu caso, acha que é o seu ponto forte? A Paula disse na estreia do filme que o Jorge “tem um lado muito cómico” e que é uma pessoa com “um sentido de humor rebuscado”. 

Eu acredito que tenho algum sentido de humor, mas às vezes, para quem não me conhece, é um bocadinho corrosivo e as pessoas não o percebem. Ou percebem e não acham graça. Mas quero acreditar que, de vez em quando, acerto. Não sei se é o meu ponto forte. A nível particular, se calhar, é o meu ponto forte, mas enquanto profissional gosto de atravessar todos os géneros. Mas, de facto, o género cómico é o mais difícil. 

Sente-se orgulhoso por ter feito um filme irreverente para os padrões portugueses? É a primeira comédia romântica gay e é um tema que nem toda a gente encara de forma leve.

É uma comédia, mas se há pessoas que não acham graça estão no seu direito. É completamente legítimo que haja quem não goste do filme. Eu acho que é preciso ter sentido de humor em tudo na vida. Já ouvi opiniões diferentes: que não acharam graça nem à forma de filmar nem ao texto, que as personagens são demasiado estereotipadas... Eu encaixo esses argumentos, desde que me apresentem razões. Se estou orgulhoso de ter feito o filme? Sim. Acho que o importante é vendermos bilhetes com produção nacional. Os portugueses, devido aos anglicismos, desabituaram-se de ouvir música portuguesa e de ver cinema português. Há que mudar esses hábitos e, se calhar, isto vai ajudar a perder preconceitos em relação ao cinema e à música nacionais. 

Sendo este um filme de humor, como é que viu o trocadilho que foi feito e que dizia: “Hot Jesus vive com o Padre Amaro”?

[Risos] Como lhe disse, uma das principais características do ser humano é o sentido de humor. Se não tivermos, não somos humanos, não sabemos rir de nós próprios Se dramatizarmos tudo o que de menos bom nos acontece, não conseguimos evoluir. Não é um trocadilho assim muito engenhoso, mas é elaborado e acho engraçado. Não pensei nisso e o Diogo [Morgado] também está farto de levar com o “Hot Jesus”, tanto lá fora como cá dentro. Nós seríamos as últimas pessoas a lembrarmo-nos disso. 

O filme O Crime do Padre Amaro foi realmente marcante na sua carreira. Era um objetivo descolar-se desta imagem?

Sim. Quando o fiz, em 2005, já tinha feito teatro e poucas coisas em televisão, mas inicialmente o Crime do Padre Amaro deixou-me um pouco chocado e com medo do que iria ser a minha carreira como ator, a partir dali. Fez-me pensar acerca do que queria para a minha carreira: se queria só fazer papéis reconhecidos no supermercado ou se queria fazer papéis em que os meus colegas de profissão reconhecessem o meu trabalho. O Crime do Padre Amaro foi um pau de dois bicos: um “boom” de visibilidade, mas também o querer fazer trabalhos consistentes, não só para a visibilidade. 

Foi difícil descolar-se dessa imagem?

Continua a ser uma batalha mostrar que sou muito mais do que o Crime do Padre Amaro. Não sei como seria voltar atrás. Óbvio que não me arrependo de ter feito o filme. Deu-me a oportunidade de fazer outros projetos com visibilidade, nos quais acho que consegui mostrar que consigo fazer papéis mais versáteis do que só o Amaro. Mas confesso que a partir daí rejeitei fazer todas as cenas de nus. Ficarei sempre estereotipado para algumas pessoas, mas é natural que eu ponha algumas barreiras em relação a esse primeiro trabalho. Foi um filme que vendeu, sobretudo, pelas cenas empoladas entre mim e a Soraia [Chaves], senão nunca teria 400 mil espetadores.

O Diogo Morgado, com quem trabalhou agora, inspira-o a tentar uma carreira lá fora?

A indústria cinematográfica, ou teatral, mesmo em Espanha ou França, é muito mais organizada e os atores e profissionais estão mais defendidos do que cá. Esse, para mim, é o principal reconhecimento, não é o do público nem o financeiro. Obviamente que temos o reconhecimento e eu adoro a minha profissão. Mas nós não somos um grupo como funciona em Espanha ou França, onde há um corporativismo que defende a nossa profissão e que nos dá alguma segurança. Cá não há isso. Esse é o motivo que podia estimular-me para ter uma profissão mais internacionalizada, porque lá fora há mais condições de trabalho.

Nunca pensou ser uma estrela de cinema à escala planetária?

Não é isso que estimula um ator. Se um ator é estimulado por isso, então algo está mal. Porque não se consegue fazer um trabalho verdadeiro se se estiver a pensar em ser uma estrela. 

O facto de ter uma família consolidada seria um impeditivo?

A família nunca está consolidada, está sempre em mutação.

Não me diga que vai ser pai outra vez? 

Eu espero que sim, mas ainda não. Mas não seria impedimento. Obviamente, valores mais altos se levantam quando se tem um filho. As prioridades alteram-se, mas é possível conjugar tudo. Se fosse uma grande oportunidade, diria que sim e depois se veria como as coisas se arranjavam.

Já disse que não queria que a Beatriz fosse filha única. Mantém essa opinião?

Claro. Acho muito importante. Tenho uma irmã e a Paula tem várias irmãs. E vai ser com irmãos e primos, sobretudo, que ela vai crescer e é com eles que vai confidenciar coisas, experimentar saídas à noite, trocar impressões da profissão, pedir opiniões, aprender a ser solidária…  

Ela pede um irmão?

Não. Ela mal fala. [Risos] Entrou agora no infantário, na descoberta do convívio com os seus pares. Isso é o que mais a estimula. 

Sente-se mais completo desde que é pai? 

Sim, sinto-me mais completo, sem dúvida alguma. Tenho sobrinhos, mas não tem nada a ver.  Se calhar, tornei-me um homem que reflete duas vezes antes de sentenciar alguma coisa em relação ao comportamento da minha filha. Com os sobrinhos somos mais despreocupados. A minha profissão é fundamental na minha vida, mas a coisa mais importante na minha vida é o que eu quero que a minha filha seja como pessoa. Está acima da profissão, sem dúvida.

Como descreve a sua relação com a Beatriz? As meninas costumam ser chegadas ao pai...

Ela tem um carinho muito especial. Eu faço sempre de personagem mais rígida e a Paula é a mais moderada. Eu sou muito disciplinador. As crianças são muito astutas e conseguem manipular-nos muito bem. É difícil não lhe fazer as vontades, mas tenho plena consciência de que é o melhor para o crescimento dela. 

Mas está presente nas brincadeiras...

Claro! Confesso mesmo que uma das formas que tenho de educar é através das brincadeiras. Isto é: posso dizer-lhe “não” a uma coisa, mas canalizo a atenção dela para outra coisa melhor para ela. Há coisas em que é chegada a mim, outras em que é mais chegada à Paula, mas, sendo menina, à semelhança de outras meninas, tem um carinho diferente e especial pelo pai.  

Texto: Helena Magna Costa; Fotos: Bruno Peres; Produção: Zita Lopes

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