Alexandra Borges conta como perdeu o pai em dez dias
«Tive de estar de baixa, pela primeira vez na vida, porque eu não conseguia recuperar»

Nacional

No programa Conta-me Como És, a jornalista desvenda o seu lado mais íntimo, ao falar dos pormenores que envolveram a morte do pai.

Sáb, 13/04/2019 - 18:30

Sentada à conversa com Fátima Lopes, Alexandra Borges abre o coração e fala da pessoa que é hoje, muito por culpa do «pai» e da «avó paterna», que lhe deram os ensinamentos mais preciosos. Por isso, como costuma dizer: «O meu pai deixou-me uma herança que os euros não conseguem comprar. Todos os valores mais profundos, que eu considero que tenho, devo a ele, a honestidade, a lealdade, o sentido de justiça, a luta pela verdade… é do meu pai, que faleceu vitima de um cancro.»

Desesperada por uma resposta que pudesse travar os feitos do cancro, a jornalista tentou impedir a propagação da doença. «Tentei salvá-lo, de qualquer maneira, como consegui. Eu levei-o para o estrangeiro para ser tratado, eu tinha acabado de fazer uma reportagem sobre as células dendríticas, e tentei esse tratamento num desespero. Foi encontrado muito avançado, o cancro...», explica à apresentadora.

Ainda assim, lembra como o pai e a avó lhe deixaram as marcas mais positivas. «A minha avó era uma pessoa que não sabia ler nem escrever, mas que tinha uma inteligência emocional como poucas que eu conheci na minha vida. Que tratava das suas rosas todos os dias às seis da manhã no jardim e que me contava histórias. Ela era uma mulher forte, com muita fibra e isso eu acho que herdei dela. Esta garra é da minha avó», afirma, referindo-se a Isabel, mãe do pai.

«Eu era a menina do papá»

O pai foi, por isso, um orientador. «O meu pai era uma pessoa que me desafiava muito. E eu confiava tanto nele que eu me atirava para o vazio, com seis anos», recorda, contando o momento, na infância, em que o pai a incentivou a atirar-se, de uma altura considerável, para uma piscina olímpica, em Beja.

«Ele era uma pessoa genuína, um bom homem, honesto. Ficar a dever era uma coisa que o incomodava. Ensinou-me tudo, sobretudo, ser justo, ser honesto e isso eu devo-lhe muito. E era um desafiador, ao mesmo tempo. era uma pessoa que acreditava muito em mim, que me fazia sonhar muito.»

Neste momento, a emoção começa a tomar conta de Alexandra Borges, que vai tentando manter a voz firme. «Eu era a menina do papá, todos dizem… E eu era, sem dúvida.» Porém, nos últimos dias de vida do progenitor, lamenta ter acompanhado o pai, praticamente, sozinha. «Eu tive de acompanhar muito sozinha a morte do meu pai.» 

«Perdi o meu pai em 10 dias»

«Acompanhei a degradação física de uma pessoa doente que eu gostava muito, com tudo o que isso tem de difícil… que é estarmos ali a acompanhar um período de morte. É quando nós percebemos que é tudo muito efémero e que nós somos muito pouco e que, sobretudo, somos aquilo que deixamos de legado, que fazemos, nós somos memórias, nós somos valores. Tudo o resto é finito», sublinha, menosprezando quezílias pequeninas.

«Estar ali ao lado do leito de morte do meu pai foi das coisas mais difíceis que eu tive de fazer na vida. Perdi o meu pai em 10 dias, em que eu depois tive de estar de baixa, pela primeira vez na vida, porque eu não conseguia recuperar as memórias positivas do meu pai. Eu fiquei com aqueles 10 dias marcados e só me lembrava daquilo.»

Não pode contar com o apoio do irmão

A ajudá-la a defrontar a «batalha», apenas teve a mãe. O irmão não a acompanhou neste período difícil. «Estive sozinha, com a minha mãe. O meu irmão, por razões circunstanciais da vida e porque ele é diferente, não estava e eu sabia que eram os últimos momentos que eu ia estar com o meu pai. A degradação física dele foi muito rápida. Eu ia todos os dias tomar o pequeno-almoço com o meu pai e, no final, ele já ia numa cadeira de rodas. Foram os 10 dias mais horríveis da minha vida.»

Alexandra Borges, sob a solidariedade evidente de Fátima Lopes, vai desvendando um pouco mais e acaba por pormenorizar como foram os últimos momentos do pai, recheados de dor.
«Eu lembro-me de um dia em que olhei para os olhos do meu pai, em lágrimas, à saída de um gabinete médico, e, sem palavras, nós falámos... e sabíamos que estávamos a viver os últimos dias da vida dele.»

A jornalista frisa que o progenitor recusou os últimos procedimentos médicos, porque percebeu que estava próximo do fim e «queria viver como tinha de viver». «Ele não quis ser operado e ficar algaliado, hemodialisado...» Ele sempre soube a verdade... Vi as lágrimas nos olhos do meu pai e percebi que estávamos em sintonia.»

Prosseguindo no discurso, Alexandra Borges assegura que nunca se está verdadeiramente preparado para este desfecho. «Tenho muitas saudades do meu pai. E tento contornar essas saudades, às vezes até trabalhando muito. Eu não paro para pensar, sou sincera… porque é tão doloroso. Eu acho que o processo de luto vai durar muito tempo, eu tive de me ausentar, porque não conseguia trabalhar, porque  foi muito duro, foi muito violento», conclui, com a certeza de que lhe fez bem regressar ao trabalho. Sobretudo, para fazer a vontade ao pai que «acreditava que o trabalho jornalístico pode mudar muitas vidas.»

Texto: Tânia Cabral; Fotos: Divulgação TVI e Reprodução Instagram

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