Duarte Siopa
Protagonizou a primeira adoção singular em Portugal há 21 anos

Famosos

“Adotar uma criança não é tarefa fácil”

Sex, 26/12/2014 - 0:00

Quis ser ator, formou-se em Psicologia Clínica e trabalhou nos três canais. Continua a aparecer regularmente e diz que, agora, qualquer pessoa faz televisão. Duarte Siopa explica como é que não larga Diogo há 21 anos.
 
 VIP – Sempre esteve ligado a várias áreas. O que é que o seu filho preenchia nas fichas da escola no sítio da profissão do pai?
Duarte Siopa – Quando fui buscar o Diogo – tinha ele dois anos –, eu já era jornalista na RTP, e era a profissão que preenchia quando começou a escrever. Tinha muito orgulho em ver o pai na televisão e recordo-me que sempre tentei protegê-lo – só apareceu publicamente com oito anos –, e chateava-me para aparecer comigo. Dizia: “Papá, porque é que os meninos aparecem com os pais e eu não posso?” Explicava-lhe, mas não percebia.
 
 O Diogo reagiu bem ao mediatismo?
Sim, embora a primeira reportagem mostrasse que fui o primeiro caso de adoção singular em Portugal. Lá na escola ficaram a saber e começou a ser um bocadinho martirizado. As crianças são cruéis e diziam-lhe coisas como “vieste dos caixotes do lixo”. Um dia, chegou a casa e disse-me que não queria ser adotado. Mas sempre lhe expliquei que tinha um pai, uma família.
 
Foi a primeira adoção singular em Portugal. Como surgiu a ideia de adotar?
Fui fazer uma reportagem, onde soube que havia um miúdo que não tinha condições e pedia auxílio a uma vizinha. Quando fui ter com ela para fazer a peça para o Telejornal, fiquei muito incomodado com o que me contou. E pedi-lhe para me dizer quando o miúdo fosse lá a casa para o encaminhar para uma instituição. Conheci o Diogo e, a partir desse dia, nunca mais nos largámos.
 
Na altura, teve a perceção de que iria ser um processo difícil?
Não, não, não. Não pensei em nada, apanhou-me desprevenido, foi inesperado. Quando perguntei se queria ir para a minha casa, nem o nome me tinha dito e respondeu logo que sim. Aí senti que não o ia largar mais. Os advogados começaram a tratar do assunto e fiquei logo com a guarda. Mas só depois de três anos no Tribunal de Menores e mais dois no de Família é que tive direito à adoção plena. E tive sempre uma assistente social que me entrava em casa às horas que entendia e sem avisar.
 
Uma das melhores decisões da sua vida?
Tenho tido muitas conquistas, pessoal e profissionalmente. Comecei por tirar Psicologia Clínica e acabei por ser jornalista, mas esta foi a minha maior conquista. Sem esperar, tenho um filho e só passado um tempo é que caio em mim. A minha vida modificou-se tanto e interrogava-me como seria o nosso futuro. No entanto, e como sou filho único e a minha mãe não podia ter mais filhos, sempre ouvi a palavra adoção lá em casa.
 
Chegaram a adotar?
Não, nunca. Mas no caso do Diogo foi inesperado, nada premeditado. Julgo que nem estava preparado para ter filhos, pois era muito novo. Mas tive sempre o grande apoio dos meus pais.
 Alguma vez sentiu falta de uma presença feminina, ou a sua mãe preenchia esse espaço?
Às vezes, as pessoas falam muito e isso incomoda-me, porque o fazem de forma leviana. Adotar uma criança não é tarefa fácil e é uma situação complicada porque ficamos responsáveis por um ser humano. No dia-a-dia tinha de estar a cem por cento e centrado nessa pessoa. A imagem feminina que o Diogo foi encontrar era a minha mãe.
 
Como é que o Diogo trata a sua mãe?
Trata-a por mamã, mas fala dela como avó. Precisou dessa imagem feminina, que estava sempre presente – e ainda está. No dia-a-dia dos casais é normal a mãe fazer o jantar e o pai dar explicações. Comigo foi mais complicado. Os meus pais viviam nas Caldas, mas sempre me apoiaram. E é fundamental haver uma imagem feminina.
 
E quando há duas pessoas do mesmo sexo?
Prefiro que assim seja do que os pais das crianças serem as instituições. No entanto, deve dar-se sempre preferência a um casal, homem e mulher. Duas pessoas do mesmo sexo podem dar o mesmo carinho e educação, mas acho que a própria criança exige um lado masculino e outro feminino.
 
Porque tirou o curso de Psicologia Clínica?
Queria ser ator. Tentei Medicina Veterinária, mas sem média, entrei para o ISPA. Achei que era uma forma de conhecer melhor as pessoas, de me encontrar e de ir por um caminho que pudesse sair-me confortável. O que não aconteceu.
 
E como se dá o click para o jornalismo? 
Começo pelas mãos do Artur Agostinho e achei muita graça à rádio. Depois, entro na RTP pelas mãos do Raul Durão e dizem-me que há a hipótese de fazer um estágio em Paris, na FR3. 
 
Falava bem francês?
Sim. Na primária já tinha aulas a nível particular. Ainda hoje, falo melhor francês do que inglês.
 Passou pela RTP, SIC e TVI. Onde ficaram as melhores recordações?
Na SIC. Valorizam as pessoas. Lembro-me que o diretor, Manuel da Fonseca, tinha o hábito de ligar a dar os parabéns. E não estava habituado a isso na RTP, uma televisão de Estado, que nem se preocupava com as audiências.
 
Claramente, tem uma amargura com a RTP.
Talvez. Tive alguns problemas, mas resolvi-os todos. Estive um ano num gabinete sem trabalhar.
 
Era uma forma de terrorismo psicológico?
Sim. Meti a RTP em tribunal e ganhei.
 
Tem saudades de fazer televisão?
Não estou ligado a nenhum canal, mas continuo a fazer televisão regularmente.
Não gostava de ter um programa semanal?
Para tudo há uma altura, e para estar à frente de um programa tinha de ser divertido. A televisão já não tem aquele glamour e o apresentador aquela classe. Hoje, qualquer pessoa faz televisão.
 
Gosta de ser famoso?
Às vezes. Quem está de fora acha que temos uma vida maravilhosa. É evidente que temos regalias e simpatias por parte das pessoas. Gosto de andar na rua e que me cumprimentem. Sou um comunicador nato desde criança, mas tem o contra da privacidade, que é muito reduzida, pelo que se inventa. Mas aprendi a não dar importância.
 
 
Leia a entrevista completa na edição número 910 da revista VIP
 
Texto: Humberto Simões; Fotos: Luís Baltazar; Produção: Romão Correia; Maquilhagem e cabelos: Ana Coelho com produtos Maybelline e L'Oréal Professionnel

Siga a Revista VIP no Instagram