Famosos

Filipa Fonseca Silva
Lança-se no mercado mundial

Primeira autora lusa nos cem mais vendidos da Amazon

Desde criança que quer ser escritora, mas, na era em que ainda não existia Internet, Filipa Fonseca Silva não imaginava, seguramente, que, aos 34 anos, conseguiria ser a primeira portuguesa a entrar no top 100 dos livros mais vendidos da Amazon, a maior editora de e-books do Planeta, na categoria Woman’s Fiction. Depois de publicar Os 30 – Nada É como Sonhámos no mercado editorial tradicional, não se deu por satisfeita e mandou-o traduzir por conta própria. Depois de um ano de promoção, os resultados estão à vista.

Já o seu segundo romance, O Estranho Ano de Vanessa M, só existe no mercado digital, apesar de ser agora possível imprimi-lo. A publicitária, grávida de quatro meses de Carlota, já é mãe de Tiago e espera continuar fértil em ideias para perseguir o sonho, já concretizado. No pouco tempo livre, continua a escrever no seu blogue, Crónicas Duma Fashion Victim.

 VIP – No seu caso, os 30 foram o ponto de viragem para muita coisa?
Filipa Fonseca Silva – E stá a ser uma década muito interessante, em termos pessoais e profissionais, e este marco é uma grande alegria, no sentido de ter o reconhecimento do meu trabalho.

Como foi o percurso do livro? Começou por um lançamento tradicional?
Foi lançado há dois anos em Portugal, pela Oficina do Livro, e teve uma aceitação normal para um autor desconhecido. Depois, achei que queria apostar no mercado internacional, sobretudo no anglo-saxónico. Portanto, por minha conta, paguei uma tradução, uma revisão e lancei o livro. A aposta foi ganha, já que depois de um ano a promover o livro, estou a conseguir chegar ao topo da Amazon.

Quando diz promover, é um trabalho que parte muito de si?
Sim, é uma edição independente, todo o trabalho foi feito por mim, desde falar com blogues, tentar pôr o livro em destaque em alguns sites, houve bastante trabalho de pesquisa... É um trabalho diário porque todos os dias a Amazon lança muitos títulos, pelo que é preciso não deixar o nosso livro cair no esquecimento.

Ia frequentemente ver em que posição do ranking estava posicionado?
Quando publicamos nestas plataformas digitais temos uma espécie de back office onde conseguimos acompanhar as vendas e foi giro perceber que a promoção está a resultar. Vou espreitar, pelo menos, uma vez por semana. Acordar e ver que tinha chegado à posição 97 foi maravilhoso.

Sendo publicitária de profissão, é a sua melhor agente?
Devido à minha profissão, tenho alguma sensibilidade para a promoção. Também tive uma ajuda muito grande do meu marido. Como ele trabalha em marketing, dedicou muito tempo a investigar estratégias. Qualquer pessoa pode lançar um e-book, mas há pessoas que veem sempre se há uma editora por trás e, quando não há, dão muita importância à opinião de quem já leu. Por isso, peço sempre aos leitores para deixarem a sua opinião. Na Internet, o percurso é ao contrário. Na livraria, o livro sai, fica algum tempo na estante e, depois, vai saindo quando chegam outras novidades, porque não há espaço físico. No digital, o livro demora tempo a ganhar visibilidade e depois começa a crescer.

Mas depois tudo acontece mais rápido?
O esforço de chegar ao top 100 é grande, mas depois de chegar lá tem mais visibilidade, logo, é mais provável ser encontrado. Quanto mais aparece mais é comprado. É uma bola de neve.

O que motivou este livro? O arriscar começar a escrever?
Eu sempre quis ser escritora, fui para Comunicação Social exatamente por isso. E, mesmo quando comecei a trabalhar como publicitária, nunca deixei de escrever. Tenho vários livros infantis que nunca foram publicados, contos... o impulso para escrever o romance deveu-se à constatação, nas conversas entre amigos, que as pessoas chegam a esta fase da vida, já passaram os 20, o primeiro emprego, começam a estabilizar e começam a pensar no que aconteceu aos objetivos que tinham traçado. Aos 20, pensamos: “Vou tirar um curso, arranjar emprego, casar, ter um filho...” e depois olhamos para trás e não aconteceu nada disso, por opção ou porque a vida deu outra volta. Às vezes, é uma desilusão; outras, é muito melhor do que tínhamos imaginado; mas muito raramente é como sonhámos. A partir dessa ideia, criei estas personagens, que são muito reais, e, obviamente, têm um bocadinho de pessoas que já se cruzaram comigo na vida.

No seu caso é quase como sonhou?
Por acaso, está a ser melhor ainda! Embora desde pequenina pensasse que queria escrever um livro, neste momento tenho 34 anos e já publiquei dois, estou a construir a minha família...

Está a ter filhos ao ritmo dos seus livros... cada livro, cada filho?
É verdade! Tenho de travar a escrita, senão, daqui a pouco, não sei! Com o segundo livro optou por fazer uma edição de autor.

Foi para ter maior liberdade?
Por um lado, a editora não se mostrou muito interessada em publicar naquele altura, remeteu para 2014, e uma publicação independente em formato digital evita o custo de pagar uma editora. Entretanto, descobri que a própria Amazon tem uma empresa que imprime os livros consoante os pedidos. Se encomendar, pode recebê-lo em formato papel, por um preço que eu determino. Tenho controle total, sou eu que escolho a capa, estabeleço o preço, faço as promoções que quero, como, por exemplo, oferecer o livro ou mudar o preço. Há uma liberdade enorme e, em termos promocionais, há também uma atenção que uma editora não pode dar a cada um dos seus autores. Portanto, a autopublicação dá-me uma enorme liberdade de promoção e permite-me ir experimentando estratégias diferentes.

O seu blogue nasceu também desta necessidade de escrita?
Foi a forma que encontrei de ir publicando as minhas coisas. Estão lá os meus contos e, desde que o meu filho nasceu, comecei a escrever o que aprendi depois de ser mãe e que ninguém nos conta. É um espaço eclético, onde escrevo o que me apetece e o que não cabe nos livros.

Continua a ser fashion victim?
Quando criei o blogue, há dez anos, estava sempre muito interessada na moda. É um mundo que me fascina, até em termos artísticos porque, para mim, a alta-costura é uma forma de arte. Criei o blogue com esse nome, apesar de, com o passar do tempo, me ir focando noutros assuntos, porque, com a idade, os meus interesses foram sendo mais abrangentes. Mas continuo a adorar moda e continuo ser muito vaidosa! Em Portugal, os bloggers mais populares atraem ódios, não podem dizer nada sem que chovam críticas.

Não receia que esta visibilidade lhe traga também este lado negro?
Qualquer pessoa que seja figura pública está sempre sujeita a invejas, a críticas, a pessoas que vão à procura não de conhecer a pessoa, mas de a criticar. Se chegou ali foi porque teve ajuda, porque conhecia alguém. Isso é inevitável e se, um dia, chegar a ser conhecida, ou se as pessoas se derem ao trabalho de escrever sobre mim, já estou preparada para não poder agradar a gregos e a troianos e, se calhar, há pessoas que me vão achar insuportável e outras que me vão achar simpática. Mas isso está para além do meu controle. Não vou deixar de ser quem sou e quem me lê sabe quem sou, como sou. Quem gosta, gosta; quem não gosta, tem todo o direito à sua opinião.

O que espera do futuro?
Tenho muitos planos, só precisava de mais tempo. Trabalho a tempo inteiro na agência de publicidade e é difícil conciliar um emprego, uma família, um filho, uma gravidez e os livros. Estou a tomar algumas notas, está tudo numa fase embrionária porque, no último ano, desde que acabei o segundo livro, não me pude dedicar à criatividade, foi mais para a promoção. É a parte má de uma publicação de autor: é preciso dedicar do próprio tempo para fazer esse trabalho. Para o ano, também gostava de lançar estas crónicas que escrevo sobre a maternidade, porque têm tido imenso sucesso no blogue, são as que têm mais comentários, estão escritas de forma descontraída e as pessoas não estão à espera disso. Normalmente, endeusa-se muito esta coisa de ser mãe e, depois, há momentos em que não é maravilhoso e em que acontecem coisas que não vêm nos livros. Tenho também livros infantis escritos há alguns anos e gostava de os publicar, porque quem já os leu diz que são interessantes. Um deles foi escrito há pouco tempo, foi o presente do meu filho quando fez um ano. Enquanto isso, penso no próximo romance, que tem de ser muito maturado, porque não gosto de escrever por escrever, gosto que tenha algum significado para as pessoas. As pessoas dizem, frequentemente, que os meus livros significaram alguma coisa para elas e gostava que assim fosse sempre.

Texto: Elizabete Agostinho; Fotos: Luís Baltazar; Produção: Elisabete Guerreiro; Maquilhagem: Vanda Pimentel com produtos Maybelline e L’Oréal Professionnel