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Sílvia Rizzo
“Acho que deveria ter namorado mais”

Sílvia Rizzo, Sílvia Teresa Lima ou Teresinha. A história de vida da atriz que queria ser polícia, mas que se tornou artista

Sempre bem-disposta, a atriz Sílvia Rizzo, de 47 anos, não é uma mulher vulgar: representa, canta, dança e tem um sentido de humor apuradíssimo. Culta, tem sempre uma piada na ponta da língua. E é nesse sentido de humor, muitas vezes sarcástico, que assenta o seu discurso. Foi também nesse tom que decorreu esta entrevista. 

VIP – Tem saudades da Teresinha?

Sílvia Rizzo – A Teresinha está cá, ainda existe, nunca se foi embora. A Teresinha, a Tekas e a Teté era a forma carinhosa como me tratavam quando era criança e a criança ainda existe.

É a mais nova de quatro irmãos e é a única mulher. Era muito mimada em pequena?

Fomos bem tratados e não era a mais mimada por ser menina. Sempre fui um pouco maria-rapaz.

Era a extensão dos três irmãos?

Era. Não era propriamente a menininha frágil e de lacinho cor-de-rosa.

Jogava à bola, esfolava os joelhos?

Sim. Ia à pesca, jogava à bola, brincava tanto com bonecas como com os Action Men e com outros jogos típicos da altura. Brincava-se muito mais.

Brincava na rua?

Muito. Estávamos sempre na rua, com carrinhos de esfera, bicicletas e a saltar à corda.

Depois da Teresinha, surge a Sílvia Lima. Isso durou até quando?

Até ao fim do liceu. Sílvia era o nome pelo qual os professores me chamavam nas aulas. E ficou. Curiosamente, na primária, o nome não era muito comum e fazia-me confusão porque achava que as minhas colegas ficavam a olhar para mim. Ainda por cima, era canhota. Ninguém merece. Sílvia e canhota (canhota profissional). Ninguém merece. Sentia-me um pouco fora do baralho. 

Não gostava do nome?

Agora, gosto. Na altura, gostava, mas não era muito vulgar. E era canhota. 

Está aí um trauma. Acho que não queria ser diferente. 

Já era, por natureza. Uns fazem por ser diferentes, eu já nasci assim. 

E quando surge a Sílvia Rizzo?

Estava sempre a rir e a dizer disparates e começaram a chamar-me Riso. Na altura, a Maria Rueff estava a fazer o Café Concerto com o João Baião e eu adorava vê-los.  Eram maravilhosamente divertidos e excelentes profissionais. Mas a Rueff saiu para fazer um trabalho com a Ana Bola na televisão e o João convidou-me para fazer o espetáculo. Na altura, estávamos a fazer o Maldita Cocaína e pensei que era um desafio interessante. Mas estava assustadíssima. Voltando ao nome, na primeira crítica do espetáculo, o meu nome foi escrito com Rizzo e assim ficou.

Está escrito na Wikipédia: “A Sílvia era irreverente, na escola era a ‘palhacinha’ da turma e ia muitas vezes para a rua.” É verdade?

Sim, achava que devia desafiar algumas regras com as quais não concordava, assim como ainda hoje. “Palhacinha” porque sempre tive um enorme prazer em poder fazer rir as pessoas ou sorrir.

O António, de 17 anos, e a Marta, de 14, saem à mãe ou são menos rebeldes?

Têm a rebeldia própria e saudável da idade e tal como eu um sentido de justiça bem apurado.

Então é desse sentido de justiça que vem a ideia de querer ser polícia?

É. Gostava de ter seguido Direito, criminologia.  Era uma área que me fascinava. Mas devido a um problema de saúde, acabei por interromper os estudos e depois comecei logo a trabalhar.

Por ter sido irreverente, é mais condescendente com os seus filhos?

Não. Até porque perdi um ano nos estudos por brincadeira. Eles são brincalhões, mas mais disciplinados. Repeti um ano e isso é perder tempo na vida. O tempo é o pior que se pode perder porque não se recupera. Chegava às aulas e toda a gente pensava: o que é que ela vai fazer hoje? E eu não os podia desiludir. Mas os professores até achavam graça. Não era aquela irreverente chata, era brincalhona. Talvez me tenha excedido naquele ano e não dei a devida importância aos estudos. 

Percebeu logo o exagero e não repetiu?

Não podemos perder tempo por um disparate. Não foi pela falta de capacidade. E também tinha a ver com os professores. Se fossem mesmo bons, nem eu deixava que se fizesse barulho nas aulas. 

Noto aí uma postura de liderança. 

Nunca fiz questão de ser líder, mas talvez o fosse por natureza, até por andar sempre bem-disposta. As pessoas achavam que eu não tinha problemas. A primeira vez que me viram a chorar, não acreditaram. Mas o facto de eu ser assim atraía as pessoas, como ainda acontece hoje. Há muita gente que vem falar comigo, desabafar, porque acha que não tenho problemas. O que não é verdade. Mas não tenho de ir para cima de ninguém porque não estou bem. Nesses dias, fico no meu cantinho, até resolver os meus problemas. Não vou trabalhar maldisposta. Sou a que diz sempre a primeira piada e a que está bem-disposta com as pessoas.

Isso torna-a menos tolerante com os outros?

Não. Não tenho é muita paciência para pessoas que acordam maldispostas, só porque sim. Não tenho de levar com a má disposição de ninguém.

Falou da primeira vez que a viram a chorar. Lembra-se de quando foi?

Na adolescência. 

Por causa de um namorado, aposto.

Não. Não estava muito preocupada com os namoricos. Até achava que, com 14 anos, era muito cedo para namorar. E, como tenho três irmãos mais velhos, via o que eles faziam às namoradas e pensava: “A mim não me apanham nisto.” Se não passei por muitos episódios foi porque vi os deles.

Antes de conseguir o primeiro trabalho, foi a um casting com Filipe La Féria porque fez uma aposta. Foi uma forma de vingar a sua mãe, que não pôde seguir essa carreira?

A minha mãe poderia ter sido uma fantástica atriz, mas naquela altura isso era impensável na família. E eu gostava mais de estar ligada à música, embora tivesse feito workshops na área de teatro. Fiz a primeira peça aos 11 anos, uma peça de bairro, mas com adultos e um encenador profissional. Não era o caminho que pensei, há coisas de que não gosto, mas agradeço trabalhar como atriz. 

Começou com Maldita Cocaína (em 1993) e agora está em A Única Mulher. São mais de 20 anos e três dezenas de participações. Sem falsas modéstias, porque a solicitam tanto?

Não sou assim tão solicitada, não fui sempre chamada. Mas não me posso queixar. 

Tinha qualidade para ser chamada mais vezes?

Não tem a ver com isso, mas talvez com outras questões. Não faço ideia. Mas não me posso queixar. Praticamente, fui tendo sempre trabalho.

Mas poderia ter tido um pouco mais?

(silêncio) Talvez. Nunca me impus. Nunca pedi nada. E hoje já não tenho idade para pedir. Era o que me faltava. 

Deveria ser ao contrário. Agora é que tem idade para pedir.

Pedir sim, impor não. 

Pedir para ser protagonista?

Nunca na vida pedi para ser protagonista. E as pessoas sabem disso perfeitamente. 

Num meio tão competitivo, já sentiu que tinham inveja de si?

Nunca senti. Se calhar, sim. Mas nunca dei por isso e não perco tempo. Não quero saber se há maus olhares ou se pensam isto ou aquilo. Passa-me ao lado.

A sensação que tenho é a de que a Sílvia Rizzo está há muito tempo no topo, mas nunca foi “a” estrela. Concorda?

Talvez porque me escondo um pouco mais, não sou polémica, sou reservada. Não tenho a certeza.

É atriz, mas canta e dança que se farta. Sente-se mesmo uma artista?

Tenho jeito. Tenho uma família de artistas. O meu pai pintava, cantava, compunha, tocava. A minha avó tocava. A minha mãe representava, escreve. Os meus filhos também têm jeito. O problema é que temos jeito para muitas coisas, mas nunca desenvolvemos uma delas.  

E os seus filhos também vão ser artistas?

Não. Têm esse potencial, mas estão a traçar o seu caminho e não me parece que seja por aí. Mas aprendem música, que é importante. 

As pessoas têm a ideia de que a Sílvia Rizzo é muito namoradeira, mas não me recordo de ter tido assim tantos namorados. Onde foram buscar essa ideia?

Não sei, sou o oposto. Eu até acho que deveria ter namorado mais.

Porque rejeitou despir-se para a Playboy?

Já disse que me constipo com muita facilidade. 

Isso já sabia. Mas porque foi escolhida?

Não faço a mínima ideia. Devem ter escolhido muitas mulheres e fui uma delas. O que me disseram foi que queriam mulheres que estavam na casa dos 40, mas que estivessem fisicamente bem. 

O seu pai morreu a 26 de abril de 2008. Adorava escrever. Ainda vai publicar livros dele?

Ainda publicou um livro. Acho que foi isso que o manteve vivo durante algum tempo. Mas ficaram alguns por publicar e quero muito publicá-los.

Que tipo de livros?

O meu pai era muito filosófico, sarcástico e com muito humor. Escrevia muitíssimo bem.

A Sílvia apanhou esse dom da escrita?

Adorava, mas não consigo. Não tenho esse dom e é uma pena.

Tem saudades dele?

Tenho, tenho. Muitas. Com a minha mãe não tenho a ligação que gostaria de ter, mas há uma ligação. Não estou muito tempo com ela, mas estamos sempre em contacto. 

Teve uma suspeita de cancro nos pulmões quando, em 2003, gravava a novela Saber Amar. Entrou em pânico?

Não, nada. Ninguém soube. Aliás, uma revista depois escreveu isso, mas não sei como soube porque nem à minha família contei. Fiquei furiosa porque não queria alarmar ninguém até ter a biopsia. 

Mas não se assustou com a hipótese?

Claro que sim. Fiquei caladinha no meu canto. Os miúdos estavam de férias com o pai, fiquei a trabalhar e aproveitei esse período para estar isolada em casa. Tinha duas pessoas que me visitavam em casa, davam-me a comida à boca. Uma dessas pessoas foi a Helena Isabel, que me ajudou bastante. Emagreci muito, talvez uns 12 quilos em dois meses. 

Depois, há dois anos e tal, partiu um braço.

Parti. Vinha desenfreada a descer a calçada portuguesa. 

De saltos?

Nem isso. A calçada portuguesa é muito bonita de se ver, mas é do pior para pisar. Está a ouvir, senhor presidente da câmara [António Costa]? 

Vai ter problemas com os defensores da calçada portuguesa.

Mas quem lá cai sou eu. Adoro a calçada portuguesa, mas, com chuva, fui por ali abaixo.

Recentemente, partiu o nariz.

Uma estupidez. A ensaiar para o Dança com as Estrelas, caí e parti um dedo e o nariz.

É caso para dizer que tem queda para acidentes. 

Pelos vistos. Mas até aqui nunca tinha partido nada. Só me tinha acontecido tirar uma agulha do joelho e outra do pé. 

O riso esconde problemas?

Completamente. O facto de rir não quer dizer que não tenho problemas. 

O riso limpa a alma?

Completamente. Faz bem a tudo, até à pele.

Já admitiu que ser mãe é o maior papel da sua vida. E, para ser avó, está preparada?

Estou, daqui a dez anos. Antes, não, nem é bom para eles. O que nos mata e envelhece é o espírito. 

Texto: Humberto Simões; Fotos: Luís Baltasar; Produção: Manuel Medeiro; Maquilhagem e cabelos: Vanda Pimentel com produtos Maybelline e L’Oréal Professionnel